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3.3.10

[Ventos de Nordeste] Crónicas Russas


1. Vaalimaa, ou Crónica de uma fronteira

04/11

Lux Aeterna [A tensão que percorre toda esta composição espelha bem a sensação de inquietude com que se vive à sombra de um gigante adormecido - o vento não soprou, o sol absteu-se de brilhar com força, nem pássaros sobrevoaram aquele pedaço de terreno que separa dois países que trazem do passado um historial de domínio, guerra e paz armada]

Vindos de vários cantos do mundo, os estudantes da Hanken dirigem-se para Rautatientori com uma finalidade: às 13h30 deveriam estar a embarcar no autocarro que os levaria ao maior país do mundo. Lá chegamos e esperamos pelo nosso nome chamado em voz alta para que possamos embarcar; travamos conhecimento com o pessoal de Erasmus da Helsinki School of Economics (HSE) (os nossos rivais do outro lado da rua, a faculdade de economia para os finlandeses que falam finlandês) e perspectivamos uma longa viagem.

Uma vez dentro dos autocarros e já cada um com o seu passaporte devolvido (esteve nas mãos da agência de viagens para se pedirem os vistos), nada nos pára: seja o trânsito, sejam as centenas de quilómetros que temos pela frente, seja o sono de depois do almoço. Esses obstáculos são ultrapassados com a conversa que nos liga a novos amigos e reforça os já existentes, com as mais uma vez inconspícuas garrafas de Schweppes que apenas e seguramente levam água tónica que começam a circular entre filas, com o avolumar de expectativas quanto aos dias e noites que vamos passar e com a música que sai dos auscultadores de quem os leva. Pelo meio, um avistamento de inconfundíveis alces (pelo seu tamanho e volume comparados com os das pequenas renas), a espécie mais rara da paisagem finlandesa, traz algum exotismo à viagem.

Após algumas hora, o ritmo do autocarro abranda a uma escala inversamente proporcional ao que se passava dentro dele. À medida que nos aproximávamos da fronteira, mais e mais pessoas se iam levantando dos seus lugares para ver se vislumbravam ao fundo a tal separação entre dois países outrora inimigos, hoje em dia vizinhos cordiais na “entente cordiale” possível no Século XXI.



Após quase uma hora parados no trânsito muito perto da fronteira, e já com os múltiplos apelos e avisos da guia que nos acompanhava para que na própria fronteira não tirássemos fotografias e que nos mantivéssemos sossegados nos nossos lugares, a impaciência começava a propagar-se. O próprio condutor já tentava, em inglês, explicar que aquilo era normal, que se demorava muito tempo por causa das burocracias e necessidade de controlar todos os veículos em detalhe. Enfim, fartou-se de nós e do barulho que fazíamos e saiu do autocarro para ir falar, ele próprio, com os soldados a fim de perceber qual era a razão para tamanha demora.



Voltou, satisfeito, e com boas notícias. Iríamos pelas “traseiras” e assim fomos, escoltados por um misto de polícias e soldados, seguindo por uma estrada paralela até ao posto de controlo de passaportes e vistos. Afinal na Finlândia também há cunhas...

Começa aqui a segunda parte da aventura da fronteira: somos obrigados a sair do autocarro e deixar para trás todos as mochilas e bagagens; a próxima parte do trajecto faz-se a pé, munidos apenas com os nossos passaportes. O autocarro segue, com o seu mestre, para ser pesado - resultado que não deve diferir em muito do que apresentar à entrada no regresso - enquanto que nós seguimos pela “no man's land” onde devemos mostrar a um guarda fronteiriço finlandês o nosso passaporte com o visto que nos autoriza a entrar no gigante país. Atravessamos quase um quilómetro entre dois países e a sensação presente é que não pertencemos a países, nem a Uniões Europeias ou outras, mas sim que estamos agora à mercê da vontade política dos governos em não declararem guerra uns aos outros enquanto nos encontramos naquela minúscula fatia de terreno que, afinal de contas, não pertence a ninguém.

Chegados ao lado de lá, mas ainda não do outro lado, voltamos a entrar no autocarro, que já tinha cumprido os trâmites legais do lado finlandês da fronteira. Já havia escurecido, parecia que nos recebiam com a noite de propósito. Atravessamos momentaneamente uma aberta na floresta: a fronteira em si. Uma faixa que deve ter uns 15 metros de comprimento e que corta a direito as árvores de maneira abrupta mas precisa, como se de uma operação militar se houvera tratado. Ao meio, uma vedação. Electrificada, diz-se. Mortal para quem a atravessar sem permissão, seguramente - é o que deve passar pela cabeça de todos; a mim é. Imagino soldados camuflados de ambos os lados da vedação e com instrumentos de visão nocturna a patrulhar a floresta e olhando-se nos olhos, sempre com a tensão de quem vigia inimigos com quem se vive em paz. Paramos de repente: ouve-se a porta a abrir e entra um soldado, armado com uma Kalashnikov, para fazer o primeiro controlo do passaporte deste lado da fronteira. O seu uniforme e maneirismos são marcados pela simbologia de outro mundo: a estrela vermelha que se mantém na fronte da ushanka, o verde mesclado com o cinzento que será impossível de discernir na floresta escura de coníferas que nos envolve, o nome em letras diferentes, o olhar desconfiado de quem serve um país que nunca viveu em paz verdadeira. Tudo em ordem, ordem para prosseguirmos.

Ao fundo vê-se o posto fronteiriço do lado de lá, o qual se ultrapassarmos estaremos finalmente do lado de cá. Mais uma vez, saímos para que o nosso companheiro e meio de transporte seja pesado. Nós temos que mostrar uma vez mais o passaporte, mas desta vez é diferente. A tensão que enchia o ar desde que saímos efectivamente da Finlândia dobrou de intensidade e as conversas baixaram de tom. Organizamo-nos em filas indianas para que chegue a nossa vez de mostrar aos guardas fronteiriços que temos permissão para entrar no seu país. Dentro de um cubículo de madeira e vidro, o guarda vê o passaporte, confere o nome no visto escrito em alfabeto cirílico na variante russa e em alfabeto romano na segunda página do passaporte de cada um e compara a cara que tem à sua frente com a fotografia certamente antiga em muitos casos - o meu. Por trás e acima de nós, um espelho inclinado permite ver ao guarda as nossas costas, para que não haja a possibilidade de alguém passar de gatas - suponho - ou de levarmos uma arma escondida - continuo a supor. A mim, uma guarda fronteiriça com aspecto terrível de comissária política dos anos 80 na versão antiga do país a que quero aceder desconfia com o olhar natural dos eslavos do Oriente do meu longo nome e da sua transliteração para cirílico. Até porque no visto que vinha no passaporte nem todos os meus nomes constavam: faltavam justamente aqueles que eu havia, ingenuamente, escrito no visto de papel que nos distribuíram no autocarro e que devíamos ir carimbando de cada vez que mostrávamos o passaporte, tanto do lado de lá, como pelo meio, como antes de estarmos do lado de cá - uma confusão necessária, pois neste momento nenhum de nós se sentia verdadeiramente em lado algum.

E enquanto a minha entrada se jogava na confusão que durou alguns segundos, minutos para mim, na análise do meu passaporte, dei por mim a pensar que estes guardas não viviam realmente em lado algum também. Não os imaginava a acabar o turno perante a escuridão e o frio que reinavam lá fora na noite e ter que recolher à casamata onde passavam os dias do destacamento à fronteira. Será que eram rendidos e que durante a noite também se aceitavam pessoas nos dois países ou fecharia a fronteira nas horas mortas da noite? Lá me devolve o passaporte, sem me dirigir uma única palavra durante todo este tempo de especulações - deve ter visto a minha nacionalidade e com a típica resignação dos povos estrangeiros calculou que eram assim que se faziam as coisas noutros lugares e pensando de si para si na superioridade do seu povo em manter as coisas simples, até nos nomes que se dão aos filhos, continuo a supor.

Esperamos pelos que ainda têm que passar o mesmo processo; uma vez todos despachados fazemos menção de entrar no autocarro mas ainda não é desta. O condutor diz algo à guia que nos traduz que ainda falta fazer mais umas pesagens e medições apesar de este estar mesmo à nossa frente, parado e com aspecto já fatigado de tanta inspecção. É, finalmente, dada a ordem: podemos entrar e prosseguir viagem.

Duas horas, foi o tempo que demorou tudo isto. Duas horas para atravessar uma fronteira onde fomos controlados 3 vezes e mesmo assim existia o risco de não sermos aceites no país. Mas agora sim, após duas horas, podemos dizer que estávamos do lado de cá, do lado do maior país do mundo. A tensão no ar alivia-se um pouco mas mantém-se como um espectro. Chegáramos finalmente à Rússia.


14.5.09

[Ventos de Nordeste] MSE

6. A chegada, ou 3 aeroportos num dia

13/10: Amsterdam -> Schiphol Airport (comboio)

Easy Star All*Stars – No Surprises


A rolar na paisagem escura e plana, o movimento do comboio embala-me e chama-me para o sono mas tento não adormecer com medo de me roubarem a mochila ou de perder a estação do aeroporto. Vou, à laia de exercício mental, tentando lembrar-me de tudo o que vi durante estes dias para me manter acordar e também fazer passar o tempo.

Chegados então a Schiphol, é altura de subir as escadarias para a estação. Meio adormecido, lembro-me dos jogos do Super Mario em que se descia nos túneis para outros níveis e mundos: ao descer as escadas para o túnel, tinha entrado no mundo da Holanda; agora subia para voltar ao mundo normal. Rio-me desta memória de infância e prossigo para o meu terminal que, como em todos os aeroportos por onde passo nesta aventura, é do outro lado do aeroporto.

Durante a caminhada descubro este globo que tem os fusos horários e que me mostra bem o que havia percorrido e quão longe estive de casa e ainda estou.





Procuro o meu balcão de check-in; ainda não está anunciado pois o meu voo é pelas 7h e são umas 2h da manhã. Dirijo-me para os balcões da SAS e aninho-me como possível nas cadeiras com braços de cada lado, o que me leva a suspeitar que estão feitas de propósito para não deixar as pessoas dormir nos bancos. Insatisfeito com esta falta de consideração pelos viajantes, deixo-me ficar por lá.

Sempre com um olho aberto e com os pensamentos focados em não ceder ao cansaço largamente acumulado e perder o avião, durmo intranquilo mas durmo com os outros viajantes a fazerem-me companhia num aeroporto vazio, adormecido e sossegado. Ao fim de umas horas, começam a circular mais pessoas e o aeroporto parece acordar com os balcões que abrem pelas 5h. Deixo-me estar mais um pouco a descansar e só depois faço o check-in com o voo de ligação entre København [lê-se shó-ben-ha (inspirado) – ven] e Helsinki.

Feito o check-in, vou a uma casa de banho lavar os dentes e a cara para acordar um pouco e ter um mínimo ar apresentável antes de me dirigir à porta de embarque.

Schiphol, Nederland -> Copenhagen Airport, Kastrup, Danmark (avião: voo SK 550 da Scandinavian Airlines)

Embarco no avião e espero até levantarmos para ligar mais uma vez o iPod para um voo de 1:25. Antes de adormecer ainda me consigo aperceber das estufas iluminadas à volta do aeroporto, rectângulos de luz na madrugada escura a brilhar pela janela. À medida que nos afastamos as luzes tornam-se conglomerados luminosos, como se a própria Terra fosse radioactiva são os únicos pensamentos que consigo formular antes de sucumbir ao cansaço.

Dou por mim a acordar já com o avião a descer para København. A neblina amortalha pedaços de terra dispersos pelas águas esverdeadas e calmas. Aterramos com suavidade e ouço Dinamarquês e como ele é uma versão raspada e arranhada do Sueco, língua que desliza na língua; como o Castelhano e o Português. Saio do avião e, sem surpresas, descubro que a porta de embarque para Helsinki é no Pingo Doce lá do sítio, ou seja, no sítio do costume: do outro lado do terminal. Ao menos o aeroporto é agradável, mesmo a esta hora madrugadora: aparentemente, é considerado um dos melhores aeroportos do mundo, tendo ganho a distinção de melhor aeroporto europeu e mundial algumas vezes.

Sempre a andar, sempre à procura, sempre a dormir em pé. Dou por fim com a porta e assento arraiais num espaço comum a três portas de embarque numa varanda com vista para as pistas ainda submersas na neblina matinal. Tempo ainda para enviar uma mensagem para Portugal a avisar do paradeiro e do fim iminente da aventura e, por fim, embarco para casa.

København, Danmark -> Helsinki-Vantaa Airport, Suomi (avião: voo SK 1712 da Scandinavian Airlines)

Sento-me num avião praticamente vazio e adormeço assim que ponho o cinto de segurança. Não sinto o avião levantar nem aterrar, foi uma hora e meia que em que a minha consciência esteve algures que não no meu corpo. Acordo com uma hospedeira a dizer-me que já chegámos a Helsinki.

Porco, sujo e possivelmente a cheirar mal – não trocava de roupa há um dia – desembarco na minha cidade, na minha realidade. Reconheço as tabuletas que me indicam para a saída e a confusão que me tinham causado naquela tarde longínqua de Agosto e da simplicidade com que tinha chegado aqui, agora em versão “sozinho e sem boleia”. Mas mais uma vez a moleskine vem em meu auxílio e diz-me que há um autocarro prestes a sair para o centro de Helsinki. Agradeço ao eu passado a previdência (“homem prevenido vale por 1500”) e entrando no autocarro, volto à realidade.

Norah Jones – The Long Day Is Over

Vantaa -> Helsinki (autocarro)

Saio em Rautatientori e apanho o metro para a Hanken, onde tinha uma discussão para IB. Entro pelas portas e imediatamente começo a reconhecer pessoas, horas passadas, coisas feitas e vistas. Sou cumprimentado e cumprimento, sou “elogiado” pelo meu aspecto terrível e dão-me as boas-vindas à vida de Erasmus. Vou buscar o meu almoço – já com saudades da comida da cantina e de uma boa refeição – e enquanto como reencontro mais amigos e sou o centro das atenções. Assim que encontro os meus colegas de IB, percebo que afinal a discussão não era nesse dia. Rio-me para não chorar e acabo pacatamente de comer. Sem mais a fazer na faculdade, ponho-me a caminho de casa.

No metro ligo o telemóvel finlandês e este recusa-se a ligar, talvez por ter ficado sem bateria algures, talvez por princípio, talvez para gozar comigo. Chego a Rastila e alguns metros a andar depois, a Harustie; chego finalmente a casa. A energia que resta não resta sequer para tomar um duche: serve apenas para pôr o telefone a carregar e mandar uma mensagem para os pais a dizer que sobrevivi a tudo e já aterrei no ninho. Tiro os sapatos e o blusão e deito-me na minha cama, para o fim de uma aventura que me levou por 4 países, 4 cidades, 3 aeroportos em 3 capitais, vários meios de transporte e onde dormi num beliche numa cabina de um barco, numa cama de hotel, num colchão num quarto de Erasmus, num beliche numa camarata de um hostel e em bancos de aeroporto. Não duro muito mais que uns minutos acordado e a última coisa que me passa pela cabeça é a fome que vou ter quando acordar e a roupa que tenho para lavar.



15.1.09

[Ventos de Nordeste] Rotinas

The Go! Team - Huddle Formation

Tenho saudades das rotinas. Saudades de acordar ao som do Awaken, de pôr no snooze mais dez minutos, de pôr as havaianas nos pés, dirigir-me à casa de banho e tomar um duche bem quente, da dificuldade que era sair da casa de banho e voltar a calçar as havaianas sem tocar com os pés (lavados) no chão (sujo). De vestir-me e pegar em barras de cereais que serviriam de pequeno almoço no metro (se estivesse a ir cedo para a Hanken) e de encontrar amigos com quem me ria das peripécias das noites anteriores.

Tenho saudades da rotina de almoço na Hanken ou na HSE ou no UniCafé ao pé da casa dos estudantes ou o do Administration Building, em frente ao ginásio, na Fabiankatu. E saudades das aulas em que a maioria dos estudantes éramos nós, de Erasmus, e o ambiente era descontraído e jovial, como se uma continuação da festa anterior ou uma ante-câmara da seguinte...

E das viagens de metro de volta para Harustie de quem não tinha que ficar na biblioteca a estudar ou a trabalhar em que se combinavam as tardes e noites mas uma prática que caiu em desuso perante o improviso a que nos dedicámos posteriormente e à alegria de aparecerem no nosso apartamento para uma cerveja que acabaria por levar sempre a mais outra, que seriam seguidas por alguém puxar de uma inconspícua garrafa de Schweppes.

UEFA Champions League Theme

E das grandes jogatanas que se faziam em Harustie e os tópicos no facebook onde fazíamos a contagem dos jogadores, onde os espanhóis Mendi (com as suas botas brancas) e o Perú (com a sua camisola do... Peru) dominavam a bola com categoria e o Fernando, por contraste, tinha sempre a infelicidade de marcar auto-golos, onde o Maciej (lê-se Machek) destruía tudo e todos com a sua "besteza" polaca e o Wybren dominava o jogo aéreo com os seus 1,95 m, onde o Diogo era a bala vestida de amarelo e que corria mais rápido que os outros com as suas perninhas e onde, se tivéssemos sorte, o Luca aparecia e mostrava porque é que a Itália é campeã mundial de futebol ou daquela vez em que o Ralf (alemão) veio e jogou que se fartou ("Today's MVP is Mr. Kellner!"). E outros, como os austríacos Herman e Stefan (Patakinho, essa promessa do futebol português!) ou o Côme e o Mael (franceses), o Radek (checo) e o Johan (sueco) que faziam número e jogadas impressionantes ou nem por isso, mas que concerteza não destoariam de uma autêntica final da Champions, excepto quando nevava e o campo ficava soterrado por um metro de neve e aí, então, era palco de grandes batalhas de neve.

Volbeat - I'm So Lonesome I Could Cry

A rotina mandava então todos para a sauna, ou no A ou no F building, e lá íamos, descansar, relaxar, beber umas cervejas e falar de tudo: raparigas, festas, viagens e o que quer que nos lembrássemos. E onde o Chris dominava o balde de água e os alemães apareciam vindos de sabe-se lá onde; onde o Alex cortou o pé a correr para a neve e o Eric gostava de se atirar de cabeça para sítios onde caísse ao lado de neve amarela, para que quem o seguisse...

E depois disso, duche rápido e jantar relâmpago com o Romain e por vezes o Rodrigo (se já tivesse voltado do seu trabalho na padaria), regado com uma ou duas cervejas e mais umas latas enfiadas nos bolsos ("These are my party pants and jacket: they can hold up to 6 cans of beer!") para irmos para casa do Rafa (mexicano), do Ralf e do Simon (alemão) jogar mau-mau, em jeito de 'pre-pre-party', onde invariavelmente alguém acabava por perder mais do que uma vez seguida e tinha que aceitar a penalização com um sorriso. A rotina começava a apresentar nuances nas pessoas que vinham jogar mas acabava sempre com alguém que perdia claramente (normalmente quem jogava pela primeira vez) e com o Florian (o barbudo) claramente a ganhar a toda a gente. E o Simon, sem dúvida impelido pelos seus deveres como anfitrião, que distribuía cartas alegremente a quem demorasse a jogar ou estivesse distraído no seu turno, aumentando as probabilidades de essa pessoa perder... e beber.

Guru Josh Project - Infinity (Klaas Vocal Edit)

E depois disso a festa prosseguia para a 'pre-party', quer no E building quer no apartamento das raparigas, um duplex no D building, onde viviam as 3 raparigas (Cynthia, Anabelle e Maria) e o fantasma holandês, de seu nome Séljine. E a rotina começava a desbotar as nacionalidades e os grupos onde quer que a festa fosse. No E building tínhamos sempre o Coco (o Côme já no seu alter-ego 'party mode' e que foi votado "The most crazy Erasmus" no jantar de despedida) a sair da janela da cozinha (um rectângulo que não tinha mais que 20x70 cm) para nos abrir a porta da área comum e a pôr o seu iPod com Daft Punk para o início da festa e Moby para o seu fim ou tantos frigoríficos para guardar bebidas, sendo que a varanda cheia de neve era o preferido. No apartamento das raparigas tínhamos a Cynthia e a sua playlist ("THE playlist!") e dois andares para fazer a festa.

E era nessas festas que por vezes apareciam os tutors (desde o Marcus e o Otto à Jutta e a Johanna) e as pessoas que viviam "at HOAS" - a Stella e a Eva (austríaca), as raparigas mexicanas e o Borja (espanhol de Barcelona mas adepto fervoroso do Real Madrid. Quando lhe perguntei se o Barcelona era o seu grande rival olhou-me perplexo e respondeu-me que obviamente eram os 'índios' - o Atlético) que vivia em Pasila. E nessas festas viam-se ao início as torres gémeas (o Wybren e o Johan) a dominarem a paisagem e grupos de nacionalidades mas lá para o fim o que se via era um grupo gigante que saudava quem entrasse pela porta como se de um irmão há muito não visto se tratasse e de onde saíam as maiores gargalhadas e memórias de Erasmus. E a rotina mandava que se vissem latas de inúmeras marcas diferentes de cerveja, consoante os gostos e as nacionalidades. Era frequente ver o Wybren com as suas Heineken, os alemães variavam entre a Lapin Kulta e a Koff, outros, geralmente os espanhóis, preferiam a Karhu e os que iam regularmente a Tallinn tinham as Saku. Estas latas costumavam ficar pelas casas onde as festas se faziam e cujo retorno dava 15 cêntimos cada aos proprietários das casa - uma espécie de imposto da festa. E as garafas de litro e meio de coca-cola, de plástico duro que davam 40 cêntimos de retorno, que normalmente alojavam mais do que Coca-Cola e as inúmeras garrafas de meio litro de água que tinham "orange juice, I'm telling you!" também faziam a sua presença.

E saudades ainda das corridas para o último metro para Helsinki às 23h12 ou então de apanharmos o autocarro e por vezes encontrarmo-nos com o pessoal da HSE que conhecemos na viagem à Rússia, vindo de Vuosaari, e chegados ao centro decidirmo-nos pelo baarikärpänen, pelo KY ou pelo Onnela se não houvesse festa na Casa.

Rotinas neste bares e discotecas seriam sempre e invariavelmente pagar 2 euros pelo bengaleiro e puxar do Silver Card, cartão que nos permitia ter desconto em cervejas e algumas bebidas. E rirmo-nos e dançarmos e bebermos e divertirmo-nos, tudo isto era rotina. E era aqui, já em Dezembro, que as lágrimas saltavam dos olhos das raparigas e os abraços dos rapazes duravam mais uns segundos e eram mais fortes e "não é adeus, é até à próxima!".

Booka Shade - In White Rooms

E depois era sair das festas e passar pelo McDonald's de Kamppi ou de Rautatientori para comer um duplo cheeseburger ou aguentar pelo autocarro das 4 da manhã (evitávamos o 90N que demorava mais tempo e apanhávamos o 96N que era bem rápido - e onde eu adormeci uma vez e perdi a minha estação) que custava 4 euros e era o último transporte de Helsinki até ao metro abrir às 5h15 aos dias de semana e às 6h30 ao fim de semana. E a rotina, para os que ainda tinham fôlego, era ir para a 'after-party' no E building onde a Olga (espanhola), a Caroline e a Anna (russa) disponibilizavam a sua cozinha e o Luca presenteava-nos com um spaghetti alla bolognese ou no D building, onde as raparigas faziam pão de alho no forno. E era também, para quem ainda não se quisesse render à noite, altura de subir aos telhados (era perfeitamente seguro!) destes prédios - ideia do Coco, claro. E foi numa das últimas noites em que se subiu aos telhados que vimos a cidade ao longe, brilhante e viva na noite escura à esquerda, as árvores gigantes e imponentes que ficavam para lá do campo de futebol atrás de nós, as luzes brilhantes de Vuosaari à direita onde pontificava um prédio que teria os seus 30 andares e à nossa frente a baía gelada.

E aí a rotina acabava com ir para casa e a despedirmo-nos nos carreiros do parque de Harustie 7, com cada um a seguir para o seu prédio e apartamento, para a sua cama e para os seus sonhos e para o dia seguinte. A rotina incluía ainda um relance rápido nas notícias desse dia se para tal ainda houvesse forças e depois deitar-me na cama onde acordaria no dia seguinte, para mais um dia, para mais uma noite.

29.12.08

[Ventos de Nordeste] Entre cá e lá

MGMT - Time To Pretend

Primeira semana em Lisboa, Portugal, primeira semana longe de Helsinki, Finlândia. Custa habituar a estar entre vidas: ainda não vi todos os meus amigos nativos mas pouco ou nenhum contacto tenho mantido com os que por lá ficaram ou já para longe também viajaram.

É tempo de fingir habituações e adaptações rápidas: veio o Natal e com ele trouxe a família e almoçaradas e jantaradas longas e vem agora o Ano Novo que trará mais viagens para fora de Lisboa e amigos e festa e animação.

Mas enquanto não recomeçar a verdadeira rotina, aulas, estudo, algo que estimule toda a vida diária, vivo entre vidas, entre Lisboa e Helsinki, entre a vida antiga e a vida de Erasmus, entre os sentimentos contraditórios de saudades e de alegria.

Vivo em vida emprestada porque ainda não deu para agarrar-me a uma só.

22.12.08

[Ventos de Nordeste] O último voo



Último post, últimas horas em casa, Helsinki, Finlândia, Erasmus, últimas limpezas e arrumações, depois das últimas despedidas, últimos abraços e beijinhos e encontros.

Promessas de viagens, contactos, recordações pairam nas salas, nos quartos, nas ruas e caminhos de Harustie, nas entradas dos prédios, nas cabeças de todos nós.

Fica por aqui concluída a publicação de posts na Finlândia sobre os Ventos de Nordeste aqui no Principado, mas inicia-se um novo ciclo, desta feita em Portugal. Por escrever estão ainda as viagens a Stockholm e Amsterdam e também à Rússia. E um balanço final, sobre tudo aquilo que foi, podia ter sido e ainda será.

Para que não fiquem por dizer mais palavras, deixo-as serem ditas por outros que não eu.



21.12.08

[Ventos de Nordeste] Luz e escuridão



As luzes iluminam, nas janelas, o caminho de volta a casa, a salvo da escuridão da Finlândia. Em tempos de progresso, já fica mais fácil voltar para casa e as velas que ardiam pacientemente durante a noite e que atravessavam a escuridão perdem relevância mas não significado. Substituídas por lâmpadas eléctricas em forma de velas, continuam a marcar presença em quase todas as janelas, de quase todos os prédios.

Para nós, estudantes Erasmus, são as luzes que nos iluminam o caminho de volta para os respectivos ninhos nos respectivos países. Porque chegou a altura de se acabarem os voos, chegou a altura de voar até casa e recolher a cabeça debaixo da asa e dormir num sono prolongado, onde poderemos sonhar e suspirar por outros voos.


19.12.08

[Ventos de Nordeste] Horas



A 76 horas de voltar a Portugal, resta-me alegrar pelas lágrimas que causo, pelas memórias que deixo, pelas canções que empreendo.

A tempo suficiente de voltar, a tempo de deixar marcas nesta terra, neste país, nesta vida.

Adeus amigos, adeus que me vou. Adeus Finlândia, adeus Suomi, adeus mas até já nas memórias!

Há ainda tempo para mais, espero. Há, certamente, tempo e espaço para aventuras e desventuras. Porque tudo o que me espera em Portugal se vai orgulhar do que aprendi, vivi, fiz, conheci, experimentei...

Quase, quase a voltar, fica o repto de expectativa de ver quem me espera no burgo...


17.12.08

[Ventos de Nordeste] Últimos sopros



Últimos dias, últimos sopros, últimos fôlegos em Helsinki. Entre pensar em fazer as malas e estranhar que há quem já tenha voltado, entre o stress de limpar a casa e de enviar uma encomenda para Portugal com coisas que não vão caber na mala, entre gerir bem o orçamento curto para os curtos dias e pensar no paper que tenho que entregar até 6ª, entre tanta coisa que ainda falta fazer, ver e viver, entre tanta coisa para voltar, perdi-me algures no tempo e no espaço.

I've got soul but I'm not a soldier...

Vivo em luz emprestada, noite contínua e fria, festas de despedida da Finlândia a cada dia que passa e cada vez menos escolha de coisas para fazer, movido pela adrenalina do fim pendente deste Erasmus, mas com a certeza de que ao voltar para Portugal algo de novo e óptimo vai começar. Sei, porque a vida é assim.

12.12.08

[Ventos de Nordeste] Contrastes



"Are you watching closely?" - frase com que começa o filme The Prestige, um dos primeiros filmes que vi cá na Finlândia, quando ainda era um novato nisto de Erasmus. A verdade é que já há muito que se deixou de olhar atentamente a cada pormenor para se olhar para a "big picture". Mas agora que o tempo verdadeiramente escasseia, é tempo de olhar cada vez mais com olhos de ver para tudo.

Depois de mais uma visita (do Tio), do hat-trick de visitas a Tallinn (agora no Inverno, depois do Verão e do Outono), depois do jantar de despedida mas ainda antes do último exame e do último paper e, quem sabe, de uma última viagem a Turku, é tempo de verdadeiramente me perguntar se estou acordado ou a sonhar.

Porque estes 4 meses aproximam-se da sua última semana e do regresso ao Sul, à normalidade, à rotina, onde deixo de ser especial porque estou noutro país, tanto para os que me acompanham cá, como para os que ficaram em Portugal. Porque sei que apesar de matar as saudades dos que ficaram, vou ficar com saudades dos que comigo também partiram.

E, apesar de tudo, não sei ainda quais serão as mais pesadas.


7.12.08

[Ventos de Nordeste] A mochila


A mochila que tenho usado por cá, para as viagens, é do Manel. E ela já o acompanhou por essa Sudamerica fora e a mim pela Europa do Norte fora.

Uma Rip Curl, verde, com capacidade para muitos litros (não sei!), fielmente acompanhou-me por esses lugares tão exóticos como Helsinki, cottage weekend, por toda a MSE (Stockholm, Nijmegen, Amsterdam, Copenhagen, Helsinki), Lapónia (duas vezes), Tallinn, Moscovo, São Petersburgo e o ginásio de Helsinki.

Agora, que ainda está cheia da roupa da Lapónia (tenho estado doente e não tenho tido paciência para desfazê-la), está quieta e encostada à parede, esperando somente a próxima viagem.




6.12.08

[Ventos de Nordeste] A semana do frio


Segunda feira, 1 de Dezembro. Jantar muy temprano, pelas 19h15 - à sueca - , na sequência da feitura da mochila para a Lapónia. Lavo a loiça, despeço-me do Romain e do Côme, outro francês que tinha dado um salto cá a casa, pego na mochila e fico um bocado apreensivo com o peso dela - era menina para pesar aí os seus 12 quilos. Não porque fosse levá-la num avião, mas porque se há coisa que aprendi a gostar e a fazer aqui na Finlândia, é viajar leve.

Encontro-me com o Wybren (holandês) e um dos Florians, o ruivo, na praça e metemo-nos a caminho do metro. Lá encontramos uma catrefada de raparigas que também vêm nesta viagem. Goza-se com o tamanho da mochila da Cynthia, que era quase do tamanho dela, e com a qual às costas ela não consegue levantar-se se estiver sentada. Aqui não se vêem as malas de toda a gente, mas praticamente todos levaram a sua mala grande e todos ficaram espantados como é que eu conseguia levar tudo numa mochila tão pequena.



(da esquerda para a direita: Marie e Jasmin, alemãs, Charlotte, francesa, Majda, marroquina radicada em França, eu, com o meu overall até à cintura, Florian, Wybren, François, francês e no chão a pequena Cynthia)

Pelas 21h encontrámos em Rautatientori (Järnvägstorget, Central Railway Station, Praça dos Caminhos de Ferro) o Walther, austríaco e a Mickaela, eslovaca a viver em Viena, a Stella, italiana, o Maciek, polaco, a Jutta e a Yvonne, as tutoras que vieram connosco. O engraçado é que para além de nós, hankeits, só mais 3 raparigas espanholas vieram nesta viagem de Helsinki. Aparentemente, estavam de férias e a visitar a irmã de uma delas que estuda cá mas como a dita irmã estava em exames, aproveitaram para viajar um bocado. Quantos mais melhor!

Viagem sem história até Tampere, onde apanhámos mais três raparigas que tinham viajado até lá de Turku, duas eslovacas e uma belga, perfazendo um simpático grupo de 25 pessoas, das quais éramos 6 rapazes! Viagem por essa noite fora, muito mal dormida, até chegarmos, pelas 9h a Ranua, onde tomámos o pequeno almoço num hotel e partimos para o Jardim Zoológico de Ranua, o mais setentrional do mundo.

Perante a grande escolha de actividades a fazer (uma visita ao zoo, andar de trenó puxado a huskies ou a renas ou andar de moto de neve), o grupo separou-se e encontrou-se por aí, eu fiz as duas primeiras. A grande atracção do zoo, que tem imensos animais do Árctico, são os ursos polares, os maiores predadores terrestres.


O único macho do zoo a brincar com um pneu, as fêmeas estavam noutro espaço.


Tamanho real! Estava a usar um overall lá do parque que era emprestado a todos os que fizessem os safaries para proteger do frio. Por acaso, estavam uns agradáveis -3º C...

Depois disto tudo, mais uns 90 km até Rovaniemi e eis-me chegado à capital da Lapónia, agora sim coberta de neve! Fizemos compras para o jantar, comemos no McDonald's mais a Norte do mundo e fomos para as nossas cottages.


As nossas cottages faziam parte do um motel à beira da estrada, à americana, e cercado por uma floresta. Os telhados estavam cobertos de neve e os caminhos também. Coelhos saltitavam alegremente por entre as cottages e eram tão dóceis que vinham comer à mão, bastava chamá-los. A minha cottage, a 24, ficou definida como a Party Cottage, ou mais familiarmente, a E Cottage. Cada uma tinha a sua própria sauna, se bem que a nossa sauna era capaz de ser a única que desse para alojar três pessoas ao mesmo tempo...

Para o jantar, nós, rapazes, fizemos um fogo bem agradável, de lenha, num edifício típicamente lapão: uma casinha redonda e baixa, com o telhado em forma de cone, cujo topo abria-se numa chaminé.


Eu, a supervisionar o fogo.

Enquanto fazíamos o fogo, as raparigas foram à sauna comum do motel. Comemos todos juntos, os hankeits, na própria casinha, onde íamos pondo salsichas e outras carnes e batatas no fogo. Depois do jantar, fomos nós à sauna e elas limparam a casinha. A emancipação é uma estrada de dois sentidos... Desta vez, e com a possibilidade de fazer uma sauna à moda da Lapónia, decidimos sair para o meio da rua e rebolar na neve de cada vez que saíamos da sala. Só para homens!

Depois, foi a vez da festa na minha cottage!



No dia seguinte, acordámos pelas 8h30 e o sol ainda não se tinha levantado. Aliás, só se dignou a fazê-lo decentemente pelas 10h mas não deve ter gostado do que viu pois pelas 15h já era noite cerrada. Estivemos duas horas e meia na vila do Pai Natal. Eu, que já lá tinha estado, só lhe achei piada porque agora estava coberta de neve e tinha um pequeno parque de renas. Depois disso, voltámos a Rovaniemi, onde almoçámos no Rosso (lembra-se, mãe?) e depois partimos para a estância de Ounasvaara para quem quisesse fazer ski ou snowboard.

Lá encontrámos outros alunos de Erasmus da Hanken, que tinham ido noutra viagem e cujas cottages ficavam na base das colinas de Ounasvaara. Como era o início da época de neve, só uma pista estava aberta. Assim, fizemos essa pista vezes e vezes sem conta, mas muito animados e felizes; afinal, estávamos a fazer pistas com amigos quase no Círculo Polar Árctico!

Umas horas depois, regressámos a casa e desta vez as raparigas presentearam-nos com um jantarinho bem agradável na minha cottage. Depois, foi uma noite bem tranquila. Os que quiseram fazer uma festa ficaram por lá, os outros recolheram às cottages deles. Como estava todo destruído, fui jogar cartas com os outros. Tempo ainda, antes de me deitar, para fazermos a nossa própria aurora boreal, visto que durante todo o tempo que estivemos na Lapónia o céu esteve coberto.



No dia a seguir, tempo ainda para visitar rapidamente uma quinta de renas e de nos fazermos à estrada. 12 horas sempre a aviar cartucho: uma pessoa só se apercebe que Rovaniemi é assim tão longe quando vai de comboio ou de autocarro, de avião não vale... É que Rovaniemi fica 5 km a Sul do Circulo Polar, o que significa que está mais a Norte que o Alaska, a Islândia e grande parte do Canadá... Estiveste em Ushuaia, a cidade mais a Sul do mundo, Manel? Não faz mal, eu estive a maior latitude!

Chegados a Helsinki, pelas 22h30, foi só tem
po de nos metermos no metro até casa, descarregar as mochilas e cair na cama para só acordar bem tarde no dia seguinte.


Dia preguiçoso: acordei tardíssimo, almocei tardíssimo, comprei uns cartões de Natal para escrever para Portugal, fiz uma composição para Sueco (sobre uma festa típica do nosso país: escrevi sobre os Santos Populares). Quando acabei, ligaram-me para me desafiar a ir patinar no gelo e jogar hóquei no gelo. Como é óbvio, e apesar de nunca ter patinado na vida, aceitei. Fomos então até ao ringue em Kallio, que fica perto da estação de Sornäinen / Sornäs, onde ficámos horas e horas. Saímos de lá quando já estava fechado! Enfim...


A fazermos uns passes antes de jogarmos.



(da esquerda para a direita: Wybren, Johan, sueco, e eu)

Concluiu-se assim a semana do frio, marcada por viagens, frio, neve, gelo, diversão, escuridão... enfim, a Finlândia!


3.11.08

[Ventos de Nordeste] Rússia



Depois de uma viagem ao Norte da Finlândia, aí está a viagem ao maior país do mundo. Parto amanhã para São Petersburgo e Moscovo, onde ficarei até Domingo.

Considerações para posts posteriores, embora saiba que estou em dívida de outras ocasiões. Mas os posts virão, as aventuras serão relatadas e as fotografias reveladas.

Mas por enquanto tenho andado ocupadíssimo a fazer um paper (outro? Ou será ainda o mesmo? Já nem sei...) e com o stress da mochila para esta viagem. E uma enxaqueca no Domingo, a primeira desde que vim para a Finlândia. Bem, um dia haveria de ter uma...

Pelo meio, hoje uma sauna (a primeira em Harustie, o Bronx transformado em Queluz ou Odivelas, vá) para poder encarar a noitada que me espera.

Até ao meu regresso à Finlândia, moi moi ou hej då!

29.10.08

[Ventos de Nordeste] Nada mais interessa



Depois de saber que tive 46 em 50 no Mellantentamen (exame intermédio) de Sueco, 47 em 50 no exame final de International Business (acabando com 83,5%, ou seja, 16,7, arredondando para 17), depois de ter visitado a vila do Pai Natal e atravessado o Círculo Polar Árctico, nada disso interessa depois de uma sauna (que já não ia desde que parti para a MSE) revigorante a seguir a ter recebido ainda melhores notícias.

Nada mais interessa.

4.10.08

[Ventos de Nordeste] Viagens e classe


Kevin Shields - City Girl

23 de Setembro de 2008, 6h da manhã. Acordo e levanto-me imediatamente, sem regatear. Tomo um duche rápido, como um pequeno almoço também rápido (cereais em 2 minutos ao poder!) e saio de casa, não sem antes esperar 2 minutos pelo Romain. Assim que saímos da porta do prédio encontramos o Rodrigo, também pronto a ir. Todos de mochila às costas, poderíamos ir para a Hanken, mas não. Dirigimo-nos para o metro onde esperamos pelas raparigas. Até aqui tudo normal, não fosse o nosso destino desse dia 
Tallinn, capital da Estónia. Entre chegarmos a Kamppi e procurarmos o autocarro que nos leva ao porto de onde saiem os ferries, uma correria e grande confusão. Como o próximo só sai daí a 45 minutos (precisamente a altura em que tínhamos que estar a comprar os bilhetes), vamos a pé até à Central Railway Station onde apanhamos o autocarro 25. Uma vez lá dentro, contamos os minutos para ver se conseguimos estar às 7h45 no porto. Conseguimos! Entramos no terminal e compramos os nossos bilhetes para o ferry da Eckerö Line (15 euros ida e volta, um docinho!) e quase depois de embarcarmos, a viagem começa.

Da esquerda para a direita: Romain, Rodrigo, Goga, Maria (lê-se Maja) da Rússia, Caroline da Bélgica, Cynthia também da Bélgica. Falta a Anabelle, francesa, que está a tirar esta fotografia.

Sem muito para contar da viagem, excepto que estivemos no bar a maior parte das 3 horas (sim, 3 horas para fazer 90 km) e, talvez impulsionados pelo álcool matinal, casais de idosos a dançar ao som da música das bandas que passaram pelo bar. Enfim...


Uma vez chegados às 11h, atacámos de imediato os objectivos mais turísticos: a cidade velha, que é mesmo bonita e diferente de tudo o que já tinha visto (bem-vindo ao Báltico, Goga), as ruas típicas (vazias de pessoas àquela hora) e as Igrejas mais importantes, entre as quais a de St. Olaf, cuja torre mede 124 metros e é omnipresente em toda a cidade. Incidentalmente, sabiam que esta Igreja foi, em tempos, o edifício mais alto do mundo?

A Igreja em si é igual a todas as outras igrejas luteranas: muito austera e com pouca vida. Mas a torre, cuja visita custa 45 Kr. (3 euros), é fantástica. A subida é muito cansativa (escadas em caracol, mal iluminadas e íngremes com largura muito reduzida) mas faz-se bem.


Momento de descanso nos bancos de pedra: a Anabelle é a rapariga loira do fundo.


Eu, no topo da Torre, com Tallinn a espraiar-se atrás de mim.


Rua típica de Tallinn, na cidade velha.


Depois da Torre e de mais algumas coisas, decidimos almoçar na Praça Central, num restaurante italiano (na fotografia). Comemos umas pizzas enormes (cujas fotografias não tenho!) e muito boas. Para pagarmos, tivemos alguns problemas, porque não conseguimos levantar dinheiro nas caixas da Praça Central. Felizmente, pudemos pagar em euros e com cartão, mas mesmo assim houve algumas hesitações: o empregado disse-nos que nos restaurantes a taxa de câmbio era 13,5 Kr. por 1€, ao contrário do que era nas lojas: 15 Kr. por 1€. Enfim, lá pagámos sem demais problemas - a Caroline, que nem uma verdadeira contabilista, deu uma lição de manuseamento da calculadora ao empregado. Depois do repasto, decidimos continuar a visita; afinal, só tínhamos até às 17h. Uma vez que se faz tudo muito bem a pé (é uma cidade relativamente pequena), continuámos a andar pelas ruas, com a Anabelle a fazer de guia e às vezes eu e o Rodrigo a corrigirmos algumas desorientações, de mapa em punho.


As ruas de Tallinn são um misto de ruas mediterrânicas (viradas para o mar) com edifícios coloridos e baixos com influências gregas (calçadas de basalto e flores por todo o lado). São muito bonitas e é uma viagem que aconselho a quem estiver pelo Báltico, Finlândia, Suécia ou Rússia.


Eu, com a Casa de Portugal atrás de mim. Uma lojinha de vinhos, infelizmente fechada àquela hora.


Uma goteira de ferro forjado em forma de bota. Tirei esta fotografia porque, para além de ser uma coisa original, no meu guia (obrigado, avô!) da Lonely Planet está esta fotografia no ângulo inverso. Em Tallinn há imensos ferreiros e o ferro forjado, como em Lisboa, está presente em quase todas as varandas. Depois de almoço e de mais algumas visitas, fizemos algumas compras. Comprei um badge da bandeira da Estónia para o meu overall, traje académico aqui da Finlândia, e procurei casinhas típicas de Tallinn para oferecer à Constança, mas não encontrei nenhumas giras. Fica para a próxima.


Catedral Ortodoxa de Alexander Nevsky, vestígios da ocupação russa do século XIX.

Depois de tantas aventuras e desventuras (incluíndo a busca incessante da fábrica de chocolate pela Anabelle e a Caroline, que a encontraram mesmo!), fomos todos ter ao porto pelas 16h40 a tempo de embarcarmos às 17h. Nova viagem, agora de 3h30, tranquila e sem grande história. Fica aqui uma imagem do pôr do sol sobre o Golfo da Finlândia:



Nesse mesmo dia, vim a saber mais logo que tinha havido um tiroteio numa escola em Kauhajoki, cidade a 400 km a noroeste de Helsinki. O dia seguinte foi de luto nacional, declarado pelo Governo Finlandês. As ruas vestiram-se de bandeiras nacionais a meia-haste e os finlandeses pareciam um pouco mais sombrios do que o habitual.

Daft Punk - One More Time

A maioria dos alunos de Erasmus daqui estão a fazer a cadeira de International Business. O primeiro de 2 papers individuais tinha sido entregue uma semana antes e, na 4ª feira, dia 24, as notas saíram. Durante a lecture, estava à procura (no meu Mac) dos slides para ir acompanhando, quando reparei que no site com os conteúdos da cadeira
 já estava o ficheiro excel com as classificações até à altura. Procurei a minha nota e, sem a dizer a ninguém, perguntei aos meus amigos os seus números para lhes dizer as suas notas. Quando finalmente alguém me perguntou quanto tinha tido, respondi de forma despreocupada: 5 pontos, em 5. E, agora para consumo familiar (e do meu ego), em 135 alunos, só houve dois 5, sendo que o meu foi o único dos alunos Erasmus. Pois é, eu sei, obrigado pelos elogios!

26.9.08

[Ventos de Nordeste] Finlândia, um mês depois


Jean Sibelius - Finlandia

Passado um mês que cheguei cá, posso fazer um balanço destes primeiros 31 dias pela terra do Nordeste (ou Norte, para eles).

As coisas más:

1. A distância da minha casa ao centro de Helsinki: todos os dias, demoro pelo menos meia hora a chegar à faculdade. Começa a cansar... Até porque se formos sair à noite, ou voltamos pela uma e meia no último autocarro ou esperamos ao frio pelo primeiro metro.

2. O tempo: apesar desta semana ter estado muito sol e algum calor, não apaga o facto do frio que se insinua a cada dia que passa. Não que não soubesse no que me vinha meter, é só porque é irritante. E eu até gosto de frio...

As coisas boas:

1. O país em si: não há palavras para descrever a beleza que nos invade assim que saímos de Helsinki. Têm que vir cá ver com os vossos próprios olhos.

2. Tudo funciona (ou quase tudo): há sempre soluções para quaisquer problemas, basta ter paciência e confiança. As pessoas confiam todas que os outros vão respeitar a lei, a propriedade e a ordem. E isso acontece.

3. Os amigos: sejam eles estudantes Erasmus ou lá da Hanken, posso dizer que já fiz grandes amigos aqui.

4. A falta de saudades (asfixiantes) da família, dos amigos, de Lisboa, de Portugal... Claro que sinto a falta, mas não ao ponto de ser impeditivo de me divertir.

5. As viagens: está tudo aqui tão perto, que é criminoso não viajar. Tallinn, Estocolmo, São Petersburgo são alguns exemplos, mas na Finlândia e perto de Helsinki temos Porvoo, Tampere, Turku e um bocadinho mais longe Rovaniemi, na Lapónia.

Com mais coisas boas que más (e que as suplantam facilmente), obviamente que faço um balanço positivo da minha estadia cá. Daqui a um mês vamos lá ver se continua assim.

P.S. : A composição para orquestra que seleccionei como música para este post, é a obra Finlandia, Op. 26 (obrigado Nana, por me teres mostrado isto em Sousel - há tanto tempo, já...), de Jean Sibelius, o mais famoso compositor finlandês. Esta peça é considerada por muitos como a música que serviu de combustível para o movimento de resistência finlandesa durante a ocupação russa no Século XIX. Os últimos três minutos são indiscritivelmente belos. Todo este poema sinfónico é inspirador e arrepia. Como a própria Finlândia.

18.9.08

[Ventos de Nordeste] Meandros e momentos finlandeses


Natural Calamity - Dark Water & Stars

Se há coisa que os Finlandeses gostam (para além de sauna, Natureza, falar sobre o tempo, telemóveis, hoquéi no gelo e beber muito álcool), é das suas cottages. Pequenas casas nos infindáveis bosques normalmente situadas junto de um lago ou mar, para onde quase todos se escapam com a família quando chega o fim de semana. Ora, o Exchange Committee que tão bem nos tem tratado, decidiu que essa seria uma das actividades finlandesas que nós não podíamos perder. Fomos todos então, no sábado de manhã para uma cottage perto de Porvoo / Borgå (lê-se Borgo - como em burgo, cidade), pequena cidade medieval 50 km a leste de Helsinki. 


Lá, fizemos alguns jogos antes de almoço (para encher chouriço), incluíndo um engracadíssimo: um jogo de futebol, onde todos os jogadores tinham que ter a visão tolhida por dois rolos de cartão, como se fossem binóculos. Como podem ver pela fotografia, eu estava em grande forma, e até estava a salvar um golo em cima da linha. Depois ainda fui a tempo de marcar um golo na segunda parte, o que nos garantiu uma vitória por 5-3! Grande futebolada, para abrir o apetite...


Depois de almoco, explorámos um bocado (cada um por si ou em pequenos grupos) a floresta e a costa, já que não estava nada programado para a tarde. Mas todos fomos derivando para a "praia" e a plataforma que servia de doca e prancha de mergulhos, onde aproveitámos um sol de Verão pouco comum por estes dias e preguiçámos a tarde toda.



Ao jantar, mais um sitz, tradicão sueca: muita comida, muita bebida e muita cantoria. Enfim, muita diversão. Após isto, a verdadeira tradicão finlandesa: a sauna! As raparigas foram primeiro, das 22h00 às 23h30, para depois ser o turno dos rapazes, entre as 23h45 e a uma. Nada mais revigorante que estar a suar que nem uma baleia num ambiente de 80 graus para depois ir dar um mergulho rápido ao mar - a temperatura do ar era algo como 5 graus e a água estava a 10-12 graus. E, como é óbvio, os verdadeiros finlandeses fazem isso nus, portanto também nós o fizemos!

Depois disto, continuou a animacão com uma discoteca improvisada para os mais resistentes - a esta hora uns quantos já tinham pendurado as botas. E só mesmo para os que continuaram uma prestação de altíssimo nível, sauna depois da festa. Sim, sauna às 3h30 da manhã. Escusado será dizer que no dia a seguir, ao pequeno almoço (e sim, tio, só dormimos umas 5 horas), todos estavam totalmente ensonados ou totalmente constipados. Eu não me inseria em nenhuma das categorias porque, bem... não sei porquê. Parece que os Portugueses são de têmpera rija. Depois do pequeno almoço e das arrrumações, voltámos para Helsinki e para casa.

Bush - Warm Machine

Para não acharem que eu ando aqui só na boa vida (não que não seja verdade - a boa vida, isto é), esta semana entreguei um paper para a cadeira de International Business. Tinha que analisar o caso de uma companhia finlandesa, a Lumene, que exporta cosméticos para a Rússia e Estados Unidos e depois ainda tive que fazer a discussão do caso num seminário. Trabalho muito exigente por uns dias, depois tem sido business as usual.

Ao mesmo tempo, temos tido muitos aniversários: a Linda, letã na terça passada, o Romain, meu room-mate e um dos meus melhores amigos nessa quinta feira e um dos Florians (alemães), o de barba, logo na sexta a seguir. Esta semana, foi a vez da Emiline, francesa, também na terça. Muitas razões para festejarmos!

Josh Radin - Winter

Frio, muito frio. Em Setembro, o que não é normal para ninguém que não os Nórdicos. Noutro dia chegou ao ponto de estarem 3 graus em Helsinki a meio da tarde. Enfim... Toda a gente continua a dizer que este foi um Verão muito frio e as opiniões dividem-se: se vamos ter um Inverno suave ou rigoroso. Há quem diga que em Outubro vai comecar a nevar em Rovaniemi e ainda antes de Novembro em Helsinki. Há quem afirme, por outro lado, que não neva aqui antes de Dezembro. Independentemente disso, sei que a partir do fim de Novembro os dias vão ter 4 horas, portanto se neva ou não, acaba por se tornar irrelevante...

Adriana Partipim - Fico Assim Sem Você

Bebés: geralmente uma coisa engracada de se ver, aqui ainda mais. E explico porquê. Aqui, as criancas são como os adultos, loiros, grandes e calados. Até agora, e sem contar com os bebés filhos dos imigrantes, todos os bebés que vi eram grandes, gordos e loiros e bastante sossegados nas suas cadeirinhas que mais parecem tanques. As cadeiras aqui são cobertas por um tecido impermeável (para não deixar entrar a chuva) e reforcadas com mantas (para não deixar entrar o frio). Já a salvo dos elementos, os bebés podem então descansar e dormir ou então brincar nas suas mesas de actividades - sim, as cadeiras têm mesas de actividades. É normal ver um bebé a brincar com o biberão cheio de leite (claro) ou com outra coisa qualquer na mesinha que passa por cima dos seus joelhos. Algumas até têm um volante... Agora entendo o porquê da Finlândia ter tantos pilotos famosos (Tommi Mäkinen, Juha Kankkunen, Mika Häkkinen, Kimmi Räikkönen, ...).

Ah, e não é possível andar de metro sem se verem pelo menos uns 3 bebés. Alguns casais até andam com dois ao mesmo tempo: um com um ano de idade e outro aí com uns 3 meses. Bastante diferente do que se passa em Portugal, infelizmente. E sim, isto é uma pequena indirecta às saudades que tenho da Ticas...

The Solids - Hey Beautiful

Séries, o melhor amigo do estudante erasmus. Porque, apesar das festas, apesar das aulas, apesar das conversas no skype com amigos e família, apesar das futeboladas e ginásio, há sempre horas para matar. E as séries que mais tenho visto (ou melhor, as únicas que tenho visto, até porque ainda só descarreguei estas) foram a grande favorita aqui de todos, How I Met Your Mother, mas também Pushing Daisies, Supernatural e The Lost Room, que só tinha visto um episódio em Lisboa antes de vir, mas chamou-me à atencão. Boas horas em frente do Mac no meu quarto, a salvo do frio e chuva que lá fora assolam o bairro de Harustie.