Showing posts with label Helsinki. Show all posts
Showing posts with label Helsinki. Show all posts

29.1.09

[Ventos de Nordeste] MSE

1. A partida, ou Os Hankeits fazem-se ao mar


06/10: Helsinki, Suomi -> Stockholm, Sverige (barco: M/S Gabriella)

Ghostland Observatory - Sad Sad City

Quem estivesse na estação de metro de Rastila dia 6 de Outubro toda a manhã veria o curioso espectáculo de uma multidão de jovens, de aspecto obviamente estrangeiro, a levar consigo mochilas e bagagens para o centro de Helsinki. O que os motivaria? Bem, depois de despachadas as aulas, o almoço e os últimos mails enviados para famílias e amigos na Hanken, os Hankeits fizeram-se ao mar.


Pelas 16h45, no porto de Katajanokka, embarcámos no ferry que nos iria levar a Stockholm. A boa disposição imperava no seio deste grupo heterogéneo que incluía nacionalidades tão díspares como alemães e mexicanos, italianos e finlandeses, portugueses e russos, enfim, uma grande salada.


Adeus a Helsinki, cidade triste e pouco mexida para nós no auge da nossa juventude. Adeus a Helsinki e olá a uma viagem de 16 horas pelo Golfo da Bótnia até Stockholm, a capital da Escandinávia.

Embarcámos no M/S Gabriella, navio da Viking Line, que nos seus 12 decks incluí parqueamento de viaturas, cabinas, sauna com jacuzzi, salas de conferências, restaurantes, lojas, um super-mercado e tudo o mais que se possam lembrar que caiba num cruzeiro, estava lá. As nossas cabinas – obviamente as mais baratas – ficavam no último deck, debaixo do estacionamento dos carros e já bem debaixo de água.




Os meus companheiros de cabina e de quarto em Stockholm: o Rodrigo, o Romain e o Josué, também mexicano, com um mapa dos decks na parede. O nosso é o debaixo, o deck 2.

Death Cab For Cutie – A Lack Of Color


As cabinas eram pequenas mas funcionais, com dois beliches cujas camas superiores tinham cintos de segurança para que as pessoas não caíssem com as oscilações e uma pequena casa de banho e uma cortina a dissimular não uma escotilha mas… casco!

Depois de instalados, fomos para os conveses onde se podia sair para o exterior e vimos a saída de Helsinki com a difícil navegação por entre as ilhotas que rodeiam os portos. O vento fortíssimo que soprava na proa do barco empurrava-nos para trás e foi aí que pela primeira vez nesta grande viagem voei: bastava saltar e em plena elevação abrir o casaco que imediatamente éramos puxados para trás. Cheguei a recuar 2 a 3 metros só nesta brincadeira.



À falta de melhor fotografia, como as que um senhor finlandês nos estava a tirar em pleno vôo com uma câmara profissional e que não lhe chegámos a pedir pois desapareceu de vista, fica esta tirada pelo Rodrigo: é evidente o esforço que estou a fazer só para me manter direito!








Imagens do fim de tarde e início de noite que prometia. Depois de se comprarem bebidas e coisas para comer – provisões para o que se seguiria – fomos para a sauna no deck 6 onde pagámos 5 euros para ter direito a sauna, jacuzzi e muita, muita diversão.

Tranquilamente sentados numa sauna pequena num muito peculiar formato triangular, eu e os mexicanos (Rafa, Josué e Rodrigo) mais o Marcus, tutor finlandês, assustámo-nos quando o barco oscilou um bocado mais do que estávamos habituados e um grande barulho ribombou no casco. Perante o nosso sobressalto os dois homens que também estavam lá riram-se e explicaram que o barulho era normal pois estávamos ao nível da água e aquilo era a ondulação normal. Mais nos asseguraram que se o barco metesse água, demoraria dez minutos até chegar àquele deck, portanto podíamos aproveitar a sauna mais um bocado. Rimo-nos e lá nos apresentámos. Ficaram bastante interessados nos mexicanos (“Very far away from home, no?”) mas quando viram o Marcus falar sueco animaram-se:

- But aren’t you Finnish?
- Ja, men jag är en finlandssvenskar. (sueco para “Sim, mas eu sou um Finlandês falante de sueco.”)
- Oh, ok. I guess it’s not that bad! (Primeiro indício da viagem da grande rivalidade entre os dois países)

Lá nos explicaram que sendo um deles sueco e o outro dinamarquês se percebiam nas suas línguas (o sueco, o dinamarquês e o noruguês são mutuamente inteligíveis) e o dinamarquês até gozou o prato a dizer que percebia os outros mas que eles não o percebiam.

Saímos então da sauna e juntámo-nos aos outros que já ocupavam o jacuzzi. Ficámos por lá até sermos expulsos sem mais nem menos, porque já tínhamos excedido para lá do tempo a que tínhamos direito e até porque aquilo tinha que fechar.

Depois disso, fomos todos jantando aqui e ali e acabámos por ir ter ao último deck, onde havia um bar de karaoke e as raparigas já tinham tomado conta daquilo tudo. Sem dar por isso, já estava inscrito, com o Rodrigo e o Josué para cantarmos uma das poucas músicas espanholas que estavam nas listas.

Jarabe de Palo – La Flaca

Com as viagens até às cabinas para ir reabastecer de bebida ou só para trincar mais qualquer coisa, as pessoas foram-se separando em grupos espalhados pelos decks dos bares e bastava procurar num ou outro para descobrir grande animação protagonizada pelos Hankeits. Inconspicuamente eram passadas de mão em mão lata e garrafas de coca-cola e outras bebidas; a razão para isso era a mesma da de Helsinki: era proibido beber bebidas alcoólicas nos bares que não fossem compradas lá, por isso eram disfarçadas de refrescos. Admito que o plano não é muito engenhoso, mas ao fim de algum tempo já ninguém se importava com isso e era ver as pessoas dançar já com as pernas a tremer (“Why are you walking in curves?” – “Well, obviously it’s because I don’t have sea legs!”) mas nem por isso desmoralizadas.

E depois de muitas horas e de um dia longo, as pessoas foram recolhendo às cabinas e demos por nós a ser enxotados da discoteca que fechava. Fomos então para os corredores das cabinas à boa moda do botellón espanhol onde metemos conversa com outro grupo de estudantes. Ao fim de algum tempo e depois de ter encontrado os meus companheiros de cabina, foi a nossa vez de nos rendermos à ondulação e ao sono. Tempo ainda para ninguém conseguir descobrir como se apagava a luz de presença na cabina e de ainda fazer uma playlist no iPod que me iria acompanhar por 4 países antes de toda esta aventura acabar.


15.1.09

[Ventos de Nordeste] Rotinas

The Go! Team - Huddle Formation

Tenho saudades das rotinas. Saudades de acordar ao som do Awaken, de pôr no snooze mais dez minutos, de pôr as havaianas nos pés, dirigir-me à casa de banho e tomar um duche bem quente, da dificuldade que era sair da casa de banho e voltar a calçar as havaianas sem tocar com os pés (lavados) no chão (sujo). De vestir-me e pegar em barras de cereais que serviriam de pequeno almoço no metro (se estivesse a ir cedo para a Hanken) e de encontrar amigos com quem me ria das peripécias das noites anteriores.

Tenho saudades da rotina de almoço na Hanken ou na HSE ou no UniCafé ao pé da casa dos estudantes ou o do Administration Building, em frente ao ginásio, na Fabiankatu. E saudades das aulas em que a maioria dos estudantes éramos nós, de Erasmus, e o ambiente era descontraído e jovial, como se uma continuação da festa anterior ou uma ante-câmara da seguinte...

E das viagens de metro de volta para Harustie de quem não tinha que ficar na biblioteca a estudar ou a trabalhar em que se combinavam as tardes e noites mas uma prática que caiu em desuso perante o improviso a que nos dedicámos posteriormente e à alegria de aparecerem no nosso apartamento para uma cerveja que acabaria por levar sempre a mais outra, que seriam seguidas por alguém puxar de uma inconspícua garrafa de Schweppes.

UEFA Champions League Theme

E das grandes jogatanas que se faziam em Harustie e os tópicos no facebook onde fazíamos a contagem dos jogadores, onde os espanhóis Mendi (com as suas botas brancas) e o Perú (com a sua camisola do... Peru) dominavam a bola com categoria e o Fernando, por contraste, tinha sempre a infelicidade de marcar auto-golos, onde o Maciej (lê-se Machek) destruía tudo e todos com a sua "besteza" polaca e o Wybren dominava o jogo aéreo com os seus 1,95 m, onde o Diogo era a bala vestida de amarelo e que corria mais rápido que os outros com as suas perninhas e onde, se tivéssemos sorte, o Luca aparecia e mostrava porque é que a Itália é campeã mundial de futebol ou daquela vez em que o Ralf (alemão) veio e jogou que se fartou ("Today's MVP is Mr. Kellner!"). E outros, como os austríacos Herman e Stefan (Patakinho, essa promessa do futebol português!) ou o Côme e o Mael (franceses), o Radek (checo) e o Johan (sueco) que faziam número e jogadas impressionantes ou nem por isso, mas que concerteza não destoariam de uma autêntica final da Champions, excepto quando nevava e o campo ficava soterrado por um metro de neve e aí, então, era palco de grandes batalhas de neve.

Volbeat - I'm So Lonesome I Could Cry

A rotina mandava então todos para a sauna, ou no A ou no F building, e lá íamos, descansar, relaxar, beber umas cervejas e falar de tudo: raparigas, festas, viagens e o que quer que nos lembrássemos. E onde o Chris dominava o balde de água e os alemães apareciam vindos de sabe-se lá onde; onde o Alex cortou o pé a correr para a neve e o Eric gostava de se atirar de cabeça para sítios onde caísse ao lado de neve amarela, para que quem o seguisse...

E depois disso, duche rápido e jantar relâmpago com o Romain e por vezes o Rodrigo (se já tivesse voltado do seu trabalho na padaria), regado com uma ou duas cervejas e mais umas latas enfiadas nos bolsos ("These are my party pants and jacket: they can hold up to 6 cans of beer!") para irmos para casa do Rafa (mexicano), do Ralf e do Simon (alemão) jogar mau-mau, em jeito de 'pre-pre-party', onde invariavelmente alguém acabava por perder mais do que uma vez seguida e tinha que aceitar a penalização com um sorriso. A rotina começava a apresentar nuances nas pessoas que vinham jogar mas acabava sempre com alguém que perdia claramente (normalmente quem jogava pela primeira vez) e com o Florian (o barbudo) claramente a ganhar a toda a gente. E o Simon, sem dúvida impelido pelos seus deveres como anfitrião, que distribuía cartas alegremente a quem demorasse a jogar ou estivesse distraído no seu turno, aumentando as probabilidades de essa pessoa perder... e beber.

Guru Josh Project - Infinity (Klaas Vocal Edit)

E depois disso a festa prosseguia para a 'pre-party', quer no E building quer no apartamento das raparigas, um duplex no D building, onde viviam as 3 raparigas (Cynthia, Anabelle e Maria) e o fantasma holandês, de seu nome Séljine. E a rotina começava a desbotar as nacionalidades e os grupos onde quer que a festa fosse. No E building tínhamos sempre o Coco (o Côme já no seu alter-ego 'party mode' e que foi votado "The most crazy Erasmus" no jantar de despedida) a sair da janela da cozinha (um rectângulo que não tinha mais que 20x70 cm) para nos abrir a porta da área comum e a pôr o seu iPod com Daft Punk para o início da festa e Moby para o seu fim ou tantos frigoríficos para guardar bebidas, sendo que a varanda cheia de neve era o preferido. No apartamento das raparigas tínhamos a Cynthia e a sua playlist ("THE playlist!") e dois andares para fazer a festa.

E era nessas festas que por vezes apareciam os tutors (desde o Marcus e o Otto à Jutta e a Johanna) e as pessoas que viviam "at HOAS" - a Stella e a Eva (austríaca), as raparigas mexicanas e o Borja (espanhol de Barcelona mas adepto fervoroso do Real Madrid. Quando lhe perguntei se o Barcelona era o seu grande rival olhou-me perplexo e respondeu-me que obviamente eram os 'índios' - o Atlético) que vivia em Pasila. E nessas festas viam-se ao início as torres gémeas (o Wybren e o Johan) a dominarem a paisagem e grupos de nacionalidades mas lá para o fim o que se via era um grupo gigante que saudava quem entrasse pela porta como se de um irmão há muito não visto se tratasse e de onde saíam as maiores gargalhadas e memórias de Erasmus. E a rotina mandava que se vissem latas de inúmeras marcas diferentes de cerveja, consoante os gostos e as nacionalidades. Era frequente ver o Wybren com as suas Heineken, os alemães variavam entre a Lapin Kulta e a Koff, outros, geralmente os espanhóis, preferiam a Karhu e os que iam regularmente a Tallinn tinham as Saku. Estas latas costumavam ficar pelas casas onde as festas se faziam e cujo retorno dava 15 cêntimos cada aos proprietários das casa - uma espécie de imposto da festa. E as garafas de litro e meio de coca-cola, de plástico duro que davam 40 cêntimos de retorno, que normalmente alojavam mais do que Coca-Cola e as inúmeras garrafas de meio litro de água que tinham "orange juice, I'm telling you!" também faziam a sua presença.

E saudades ainda das corridas para o último metro para Helsinki às 23h12 ou então de apanharmos o autocarro e por vezes encontrarmo-nos com o pessoal da HSE que conhecemos na viagem à Rússia, vindo de Vuosaari, e chegados ao centro decidirmo-nos pelo baarikärpänen, pelo KY ou pelo Onnela se não houvesse festa na Casa.

Rotinas neste bares e discotecas seriam sempre e invariavelmente pagar 2 euros pelo bengaleiro e puxar do Silver Card, cartão que nos permitia ter desconto em cervejas e algumas bebidas. E rirmo-nos e dançarmos e bebermos e divertirmo-nos, tudo isto era rotina. E era aqui, já em Dezembro, que as lágrimas saltavam dos olhos das raparigas e os abraços dos rapazes duravam mais uns segundos e eram mais fortes e "não é adeus, é até à próxima!".

Booka Shade - In White Rooms

E depois era sair das festas e passar pelo McDonald's de Kamppi ou de Rautatientori para comer um duplo cheeseburger ou aguentar pelo autocarro das 4 da manhã (evitávamos o 90N que demorava mais tempo e apanhávamos o 96N que era bem rápido - e onde eu adormeci uma vez e perdi a minha estação) que custava 4 euros e era o último transporte de Helsinki até ao metro abrir às 5h15 aos dias de semana e às 6h30 ao fim de semana. E a rotina, para os que ainda tinham fôlego, era ir para a 'after-party' no E building onde a Olga (espanhola), a Caroline e a Anna (russa) disponibilizavam a sua cozinha e o Luca presenteava-nos com um spaghetti alla bolognese ou no D building, onde as raparigas faziam pão de alho no forno. E era também, para quem ainda não se quisesse render à noite, altura de subir aos telhados (era perfeitamente seguro!) destes prédios - ideia do Coco, claro. E foi numa das últimas noites em que se subiu aos telhados que vimos a cidade ao longe, brilhante e viva na noite escura à esquerda, as árvores gigantes e imponentes que ficavam para lá do campo de futebol atrás de nós, as luzes brilhantes de Vuosaari à direita onde pontificava um prédio que teria os seus 30 andares e à nossa frente a baía gelada.

E aí a rotina acabava com ir para casa e a despedirmo-nos nos carreiros do parque de Harustie 7, com cada um a seguir para o seu prédio e apartamento, para a sua cama e para os seus sonhos e para o dia seguinte. A rotina incluía ainda um relance rápido nas notícias desse dia se para tal ainda houvesse forças e depois deitar-me na cama onde acordaria no dia seguinte, para mais um dia, para mais uma noite.

29.12.08

[Ventos de Nordeste] Entre cá e lá

MGMT - Time To Pretend

Primeira semana em Lisboa, Portugal, primeira semana longe de Helsinki, Finlândia. Custa habituar a estar entre vidas: ainda não vi todos os meus amigos nativos mas pouco ou nenhum contacto tenho mantido com os que por lá ficaram ou já para longe também viajaram.

É tempo de fingir habituações e adaptações rápidas: veio o Natal e com ele trouxe a família e almoçaradas e jantaradas longas e vem agora o Ano Novo que trará mais viagens para fora de Lisboa e amigos e festa e animação.

Mas enquanto não recomeçar a verdadeira rotina, aulas, estudo, algo que estimule toda a vida diária, vivo entre vidas, entre Lisboa e Helsinki, entre a vida antiga e a vida de Erasmus, entre os sentimentos contraditórios de saudades e de alegria.

Vivo em vida emprestada porque ainda não deu para agarrar-me a uma só.

19.12.08

[Ventos de Nordeste] Horas



A 76 horas de voltar a Portugal, resta-me alegrar pelas lágrimas que causo, pelas memórias que deixo, pelas canções que empreendo.

A tempo suficiente de voltar, a tempo de deixar marcas nesta terra, neste país, nesta vida.

Adeus amigos, adeus que me vou. Adeus Finlândia, adeus Suomi, adeus mas até já nas memórias!

Há ainda tempo para mais, espero. Há, certamente, tempo e espaço para aventuras e desventuras. Porque tudo o que me espera em Portugal se vai orgulhar do que aprendi, vivi, fiz, conheci, experimentei...

Quase, quase a voltar, fica o repto de expectativa de ver quem me espera no burgo...


18.12.08

[Ventos de Nordeste] O fim do Legenda



Ontem, última quarta feira em Helsinki, marcou também a última noite do Legenda, o pub da AE da Hanken. Como tal, quase todos os alunos de Erasmus marcaram presença e uns quantos outros Hankeits também.

Festa tranquila, onde a emoção estava presente em todas as assinaturas de t-shirts, overalls, livros, etc.

Foi o fim do Legenda e que marca também o regresso à inocência: as partidas de amigos já não são feitas a conta-gotas, mas antes a torneira aberta leva-os para longe, para essa Europa fora, se bem que à distância de um computador com internet ou, quem sabe, um bilhete de avião low-cost em Janeiro...


7.12.08

[Ventos de Nordeste] A mochila


A mochila que tenho usado por cá, para as viagens, é do Manel. E ela já o acompanhou por essa Sudamerica fora e a mim pela Europa do Norte fora.

Uma Rip Curl, verde, com capacidade para muitos litros (não sei!), fielmente acompanhou-me por esses lugares tão exóticos como Helsinki, cottage weekend, por toda a MSE (Stockholm, Nijmegen, Amsterdam, Copenhagen, Helsinki), Lapónia (duas vezes), Tallinn, Moscovo, São Petersburgo e o ginásio de Helsinki.

Agora, que ainda está cheia da roupa da Lapónia (tenho estado doente e não tenho tido paciência para desfazê-la), está quieta e encostada à parede, esperando somente a próxima viagem.




23.11.08

[Ventos de Nordeste] Neve



De há uns dias para cá, tem vindo a nevar. Primeiro timidamente, ao chegarmos a Harustie depois da festa onde nos finalmente deram os overalls, onde a praça estava coberta por uma fina camada branca que se quebrava alegremente debaixo dos sapatos.

Em Helsinki também já me nevou em cima e ontem, ao irmos de autocarro para Kallio, o Bairro Alto aqui do sítio, as estradas e as árvores cheias de neve alegraram ainda mais o caminho.

Hoje, acordei e saí do meu quarto e, ao olhar pela janela que dá para a praça, um autêntico nevão enche o mundo de branco.

Já começou...

18.11.08

[Ventos de Nordeste] Céu



A leste, o nascer do sol que esborratava a pintura azul celeste em tons laranja vivo, em fogo. A oeste, um arco-íris preenchia a abóbada de nuvens que pontificava sobre a baía que separa Rastila de Puotila. A caminho do metro, hoje de manhã, o céu ofereceu-me dois espectáculos tão diferentes quanto belos.

De manhã aproveitei as quatro horas e meia que tenho entre aulas para visitar as catedrais de Helsinki. Atravesssei a cidade a pé, perante o vento que me empurrava para os lados e puxava para trás, a chuva ligeira que me enchia as pestanas de pequenas gotas e o frio que não venceu, pois hoje levei calças polares por debaixo dos jeans.

Visitei três catedrais afectas ao Cristianismo: a Catedral Branca, pertencente à Igreja Luterana da Finlândia, a Catedral de Uspensky, a maior catedral ortodoxa do Ocidente e que está sob a alçada da Igreja Ortodoxa Oriental, e a de São João, também luterana mas englobada na paróquia de São João do Sul da Suécia. Não passei por nenhuma católica, porque as minhas pernas não me levaram até uma, mas já sei onde posso encontrar uma, e um domingo destes hei-de ir à missa, coisa que, infelizmente, não faço desde antes de vir para cá.

Agora que escrevo estas linhas, o céu decidiu desabar e limpar o dia das suas amarguras e tristezas, purificar as suas alegrias e vitórias e, quem sabe, acabar de maneira perfeita este dia em que senti particularmente Deus comigo.

28.10.08

[Ventos de Nordeste] Visitas e Lapónia


Depois de mostrar Helsinki à mãe e às tias em 2 dias (que pequena que é!) e de visitarmos Tallinn noutro dia (ainda mais pequena...), chega a altura de saltar até Rovaniemi, na Lapónia. Três dias lá e outro de volta a Helsinki e vão-se embora as minhas primeiras visitas (e quem sabe as últimas...).

Sei que não tenho escrito nada aqui mas assim que acabaram os exames (o de International Business correu agradavelmente bem, apesar de ter durado 3 horas!) ainda não parei um dia que fosse (excepto o dia em que tive febre...). Assim que voltar da Lapónia, vou ter que escrever um term paper, ou pelo menos uma versão preliminar, em 4 dias e depois vou à Rússia: Moscovo e São Petersburgo - queriam fazer-me pagar 90€ pelo visto. Perguntei se afinal não eram 45€ ao que me responderam que para cidadãos mexicanos era 90€. Pois...

Aproveito para deixar a conhecer a Islaja, cantora finlandesa, cujas canções e vídeos são bastante evocativos da beleza cultural e ambiental da Finlândia.

Até quando puder voltar a escrever qualquer coisa...

15.10.08

[Ventos de Nordeste] Ideias espontâneas e uma reflexão


Ideias rápidas:

1. De regresso a Helsinki, ao frio, à rotina. E aos posts, se bem que agora um bocadinho mais espaçados pois que vem aí a semana dos exames.

2. A Mini Saga Europeia (MSE) que vivi a semana passada terá honras de vários posts, assim que puder escrevê-los.

3. Acho que perdi a minha moleskine... já em Helsinki. No mínimo irónico, até porque tinha lá vários posts quase prontinhos a saltar aqui para o blog. Enfim...

4. Hoje tive um exame de Sueco (correu bem) e uma apresentação e discussão para International Business que também foram impecáveis. Parece que sim, fiquei contente.

A reflexão:

Cheguei a Helsinki sete dias depois de a ter deixado e, apesar de nada ter mudado, parece que tudo mudou. Desde ao Outono que se instalou e às árvores da margem direita quando vou para casa de metro ainda estarem verdes e viçosas por oposição às da margem esquerda que se ruborizam e amarelecem, ao frio que hoje suspeito que me iria congelar as pernas (calças fininhas é no que dá, senhor Goga...) e às pessoas que em 5 dias depois de nos separarmos em Stockholm mudaram tanto. Seja por terem cortado o cabelo, uma barba que foi deixada crescer, um penteado diferente, algo não está igual. Os nossos dias de inocência aqui em Helsinki já foram deixados para trás: vão começar agora os exames e cada um está por si, neste grande grupo. E esta semana marca o meio da minha vida aqui na Finlândia...

11.9.08

[Ventos de Nordeste] - Apontamentos e Considerações

Bloc Party - Flux


3 apontamentos:

1. Se eu andar na rua a uma determinada hora (digamos, às 11h15) como ontem, na Runeberginkatu (a que liga a estação de Kampi à Hanken), posso parecer alto. E explico as minhas razões para pensar assim: a essa hora, todos as crianças estão nas aulas; todos os jovens adultos estão ou nas aulas da faculdade ou no emprego. Então, quem anda na rua a essas horas são, principalmente, os idosos (que são baixos para a média finlandesa ou que já começaram a minguar) e os turistas, que não são nórdicos. Assim, é possível para mim, que já sou baixo para os padrões portugueses, parecer alto na Finlândia.

2. Continuando na senda da altura: os funcionários da cantina da Hanken, onde tenho almoçado todos os dias por 2,20€, devem achar que eu ou estou em crescimento ou então estou sub-nutrido. E é por isso que dia após dia continuam a servir-me doses industriais de strogonoff de porco, fatias gigantes de pizza, quilos de massa e litros de sopa. Para que eu cresça mais um bocado, se calhar. Só se for para os lados... (não se preocupe mãe, também como sempre um prato de salada)

3. Os ginásios universitários de Helsinki funcionam muito bem. Por apenas 40€ tenho três meses de acesso a quaisquer instalações. Costumo ir ao da Administration Building, que fica na cave do edifício dos serviços administrativos da Helsingin Yliopisto (Universidade de Helsínquia ou Helsingfors Universitet). Depois de exercícios nas máquinas, vou à sauna e costumo fazer o mini-ciclo: 5 minutos, duche de água fria, 3 vezes. O ciclo normal são 15 minutos.


2 considerações:

1. Receber encomendas de casa é óptimo. Não só se tem a satisfação de chegar a casa e ver o que veio (camisolas de lã, bolachas e um impermeável na primeira remessa, a título de exemplo), mas ainda a de se andar na rua com pacotes e ver os olhares de inveja das outras pessoas. Enfim, um Natal mais cedo.

2. Lavar a roupa, o grande papão dos alunos Erasmus daqui. Mas, mal ou bem, lá consegui fazer duas máquinas: uma de roupa escura e outra de roupa clara. E saiu bem, claro.

7.9.08

[Ventos de Nordeste] - Primeira semana, primeiros passos fora do ninho



O bloco 7 de Harustie é habitado principalmente por estudantes, a maioria dos quais de Erasmus (e onde cerca de 85% dos estudantes de Erasmus da Hanken estão), imigrantes e idosos. É, claramente, um bairro de gente sem grandes possibilidades como se consegue ver pela total ociosidade dos jovens locais, que a seguir às aulas ficam no largo a falar, andar de bicicleta e fumar. Apesar disso, é a nossa casa agora e ainda todos nos estamos a ajustar. Desde a
sauna que não aparece aos caixotes de lixo que permanecem incógnitos, aos encontros para ir para a Hanken ou a Helsinki no meio dos jardins com outros “Hankeits” (como somos chamados – estudantes da Hanken) ao já mítico prédio E, onde foram as House Parties até agora e onde provavelmente serão sempre.


Continuando a sequência dos acontecimentos do post anterior, lá fomos para a festa. Como ainda era o segundo dia, as pessoas mantinham-se em grupos com aqueles que já conheciam. Ao fim de algum tempo, começa-se a falar na hipótese de ir sair a Helsinki, a uma discoteca que aparentemente é muito boa. Céptico, começo por dizer que estou cansado e ainda não arrumei as coisas todas; além disso, amanhã temos que estar às 9h30 na Hanken... Aparece então a Johanna (a minha tutora) que me convence a mim, ao Alex e ao Erick (também alemão). Lembro-me então que não tinha trazido a máquina fotográfica! Enfim... Vamos todos então com ela e outra tutora (não me lembro do nome). Chegados à discoteca, entre Kampi e a Central Railway Station (nome em finlandês e sueco), estamos na fila enquanto 4 rapazes atrás do Erick (que mede 1,90m) conseguem ser mais altos que o alemão, cada um devia medir uns 2,05m – sem exagero. À entrada, a primeira vez (de provavelmente muitas) que me perguntam a idade. O curioso é que o segurança me perguntou em finlandês. Respondo sem hesitações: “I’m 21 years old.”ao que o segurança me pede desculpa e diz para entrar. Lá dentro encontramos mais estudantes da Hanken – umas raparigas belgas e francesas – e mais tutores. Fazemos a festa entre nós, mas só até às 1h30, porque a essa hora temos que ir apanhar o último autocarro que sai na Estação de Comboios antes das 2h00, a hora a partir da qual temos que pagar a tarifa nocturna. O nosso travel card é bom, mas não é assim tanto...

The Strokes – Red Light

No dia seguinte tento ligar-me à internet na Hanken e consigo – ainda que parcialmente e só durante uns 20 minutos. Disseram-me que a rede wireless está com alguns problemas porque estão a mudar os routers. Quer dizer, país de alta tecnologia mas se calhar nem tanto... Aproveito essa tarde então para começar a tirar fotografias e explorar um pouco a cidade. A andar sozinho por Helsinki, de auscultadores nos ouvidos, mochila às costas, confundo-me com os seus habitantes – estou mesmo cá. Começo a aperceber-me que isto afinal não é uma viagem com amigos, como as da neve ou a de finalistas. Não somos um grupo de jovens a brincar às casas nem aos turistas: somos estudantes de intercâmbio. Com a confiança renovada que tudo vai correr bem, continuo a andar por aí...


Na sexta-feira fazemos uma excursão de autocarro por Helsinki na
Helsinki Expert. Aí estava já embrenhado no grupo dos mexicanos e dos espanhóis, onde conheci o Fernando, o Mendi, a Irene e a Olga (todos do país nosso vizinho) e o Josué, a Estefania e a Lulu (Lourdes) e o Rodrigo, estes do México. Quando a nossa guia diz que também havia feito Erasmus, em Portugal, foi a festa no autocarro no nosso grupo, pois sou o único estudante de Portugal na Hanken. Aproveito para falar com ela português, língua longínqua já... Depois da visita, vamos todos comer uma espécie de donut com creme (de chocolate, de alcaçuz, de ovos...) em cima (rói-te de inveja, Homer Simpson) e depois seguimos todos para casa. Estava-se a planear uma saída à noite, mas não fui porque não ouvi o Rodrigo (que mora no apartamento ao lado do meu) a bater à porta. Enfim...


All India Radio – Far Away

Sábado, dia 30. Vamos com os tutors e quase todos os estudantes de Erasmus da Hanken de ferry para
Suomenlinna, uma fortaleza marítima numa ilha, onde fazemos um pic-nic e uns jogos de team-building. Antes de nos dirigirmos ao local onde vamos passar a tarde, paramos numa espécie de mini-mercado, onde o Otto (um dos tutores) nos aconselha a comprar bebidas, sejam elas alcoólicas ou não alcoólicas. “Muito responsável”, diz o Manel quando lhe conto isto. Começamos então todos a conhecermo-nos melhor, o que serve para quebrar o gelo e um bocado os grupos: até agora os alemães mantinham-se juntos, como os francófonos (franceses, canadianos e belgas) e em certa medida os que falam espanhol (eu incluído ☺). 


Nessa noite, há mais uma House Party (outra vez no ‘Party building’, o E) e depois vamos todos sair para o Club KY, uma discoteca muito em voga em Helsinki. Como nos pedem 7€ à entrada, eu, o Rodrigo e o Rafa (outro mexicano) desistimos de ir (até porque o último autocarro é às 2h e a discoteca fecha às 3h30 e isto eram umas 1h40) e decidimos ir comer um kebab. Pedimos para levar e ainda vamos a correr mas já não conseguimos apanhar o autocarro. Resignamo-nos a pagar 4 euros e sentamo-nos, desconsolados. Mas nem tudo é mau, pois encontramos a Riikka, finlandesa que esteve 3 anos em Portugal a estudar (em Lisboa e Braga) com o marido (também finlandês) e que estava muito contente por falar comigo em português. Deu-me o número dela e disse para eu lhe ligar, para um café ou algo do género. Simpáticos, ambos. Saímos na estação em frente à bomba de gasolina e despedimo-nos do Rafa que mora no prédio E. Eu e o Rodrigo comemos o nosso kebab (bem grande e picante – mas a ele não lhe sabe...) em casa dele e depois vou para minha casa dormir e recarregar baterias.

Sublime – Santeria

Domingo, dia de descanso e de compras. Vou ao Lidl em Itakeskus e depois ao SMarket em frente a casa. Quando estou no metro, de volta, e perante o cansaço, os olhos pesam e começam a fechar-se. E, numa passagem por cima de uma baía com o mar à minha volta, as saudades começam a aparecer e os pensamentos fogem para as pessoas que ficaram em Lisboa e Portugal. E depois para o que se passou entre o pequeno Goga que, no 5º ano, chegava a casa depois das aulas e lanchava e fazia os trabalhos de casa para brincar o resto da tarde toda. Ou o já mais crescidinho que esperava pacientemente no 8º ano pelo fim das aulas para às terças e quintas ter treinos de futebol no
Colégio e às quartas e sextas rugby no CDUL. E o Goga homenzinho do 11º que já tinha a vida toda planeada. E ao, já na faculdade, Diogo que arrancou para um semestre apostado em ser homem e trabalhar que nem um animal e fê-lo porque era a coisa acertada a fazer. E ao Diogo Maria, que no jantar de aniversário de 21 anos, encantou a família com um discurso que “emocionou a Avó”. Todas essas minhas encarnações conduziram-me aqui, a Helsinki, ao Nordeste. Daqui a uns anos, olharei para trás e verei esta fase da minha vida como decisiva, mas não exclusiva, para chegar onde quer que esteja na altura.

Bush – The Chemicals Between Us


2ª, 3ª e 4ª: aulas e outras coisas. Nada muito a dizer, apenas que esta não é a
rentrée habitual: frio, mau tempo, aulas logo a abrir Setembro e sem os amigos do costume. Difícil, mas não impossível. Entretanto, já com um telemóvel finlandês (um... Samsung B100 e não um Nokia, ao contrário do que seria de esperar...), aproveito para matar saudades da família (as chamadas e as mensagens são muito mais baratas!) e começar a desenvolver a rede de contactos aqui com os estudantes de Erasmus mas também com os nativos. Aproveito também para tirar fotografias a tudo o que surge como prova à família de que eu estou cá, respiro este ar, bebo todas estas experiências, rio-me, faço amigos, aprendo novas coisas, enfim, cresço.


2.9.08

[Ventos de Nordeste] - O começo de uma aventura, ou Crónica de uma partida, chegada e primeiro dia

LCD Soundsystem – Tribulations

6h00, o despertador toca. Sem dificuldade, levanto-me e dirijo-me para a casa de banho para o habitual duche matinal. Só já dentro da banheira e com a água quente a escorrer-me pelos ombros é que efectivamente me apercebo que este será o último duche em Lisboa durante muito tempo. Visto-me, com uma sweat-shirt e blusão (ridículo para Agosto em Lisboa) e calço as botas da Timberland, porque se fossem na mala aumentariam o excesso de peso que já contava com 8 kilos... A mãe acorda, o telemóvel vibra com uma mensagem do irmão que está a estudar e que pergunta qualquer coisa que me escapa. Como qualquer coisa à pressa, sem grande fome. Pego nas malas e ponho-me fora de casa.

Chego ao aeroporto pelas 7h15 e enquanto procuro o balcão do check-in, ainda não me tinha mentalizado que era mesmo para ir. Chega a minha vez, mostro, orgulhoso, o papel que imprimi e que tinha o código de reserva do bilhete (comprado pela internet, uma estreia!) e ponho a mala na balança. 28 kilos, 8 a mais do que o permitido, como previsto na velhinha balança lá de casa. Passam-me o recibo de excesso de peso, pago e entretanto chega a irmã, o cunhado e a sobrinha. Grande festa no balcão, à cigana. Pacotes de bolachas enfiados na mochila à pressa, dirijo-me então para o balcão 29 do check-in para poder receber o cartão de embarque. Com ele na mão, passa a ser real; vou mesmo embora daí a coisa de uma hora. Aparece entretanto o tio, vindo de Sintra de propósito para se despedir do sobrinho e afilhado. Ainda dá tempo (à portuguesa) para todos tomarmos um café e antes que me aperceba, já são 8h00 e tenho que me ir embora. Abraços, beijinhos, birra da sobrinha (“o pio vai embora, dê lá beijinho...”), adeus familhia que o benjamim vai para a Escandinávia.

No controlo de segurança, dizem-me para despachar-me que já estão a chamar pessoal para esse voo. Pego na mochila, na mala do portátil (que demorou épocas a tirar da mochila) e vou a correr para a porte de embarque 12. Como é óbvio, é na outra ponta do terminal. E eu, a correr com botas novas, de blusão e camisola, com uma mochila e um portátil nas mãos, lá consigo chegar a tempo do “last call for flight AY 922 to Helsinki”. Mostro o meu BI e cartão de embarque e desço até ao autocarro. Lá, enquanto tiro camisola, substituo botas por ténis e afins, liga-me a família a dar as últimas despedidas. Finalmente embarco no Airbus A320 da Finnair que me vai levar para a outra ponta da Europa.

Voo sem história, mas com algumas estórias. Desde os inúmeros chineses e indianos a bordo (claramente era um voo de ligação), ao bebé grande, gordo e loiro com um pijama de zebra (a ver se encontro um para oferecer à Teresinha), ao finlandês que à minha frente lê um jornal em que um artigo sobre o Deco e o seu golo de livre directo, em que chamavam ao médio do Chelsea “Decolla”, às pacatas três horas e meia de sono, entre uma refeição da qual não reza esta crónica até à simpatia das hospedeiras de bordo (primeiro contacto com mulheres nórdicas bem acima do metro e oitenta).

Começa a descida para Helsinki-Vaanta e a primeira impressão é que todo o pais é formado por lagos, ilhotas, baías e abetos (o que não está muito longe da verdade). Desembarco e sigo entre a hesitação e a temeridade as indicações em finlandês e sueco até aos tapetes onde espero uns 10 minutos até aparecer a minha mala. Um dia (ou um post) farei um inventário sobre o que veio para cá, para ver se será o mesmo que volta...

Fatboy Slim – Right Here, Right Now

Saio do terminal para o Arrivals Hall 2, onde me aguardam duas horas de espera pela “Tutor”, a Johanna, que só me pode apanhar pelas 17h45, sendo que são 15h40... Penso em comer qualquer coisa no café, mas aliado ao preço proibitivo de 4,5€ por uma sanduíche, está o impedimento de nem sequer saber o que é que as ditas contêm. Isto porque os painéis informativos estão em finlandês e sueco. Gorada a hipótese sanduíche, atiro-me às bolachas perdidas pela mochila enquanto saco do Mac (Macbook, o meu portátil) e ponho-me a ver o Any Given Sunday, pela sétima ou oitava vez...

Recebo uma mensagem da Johanna a dizer que havia chegado. Procuro-a e encontro-a, justamente de acordo com a sua descrição: muito alta e loira. Conheço também o Alex (alemão) e o Chris (belga). Como as malas não cabem todas no Volvo da Johanna, eu e o Chris seguimos num táxi para o nosso bairro, Harustie, nos blocos 7. O taxímetro corre alegre até à bonita soma de 40 euros (mas devo dizer que nos cinco minutos que esperámos pela Johanna e o Alex, o taxista deixou correr – pouco próprio de um homem que ouve Bob Marley e reggae). Assim que finalmente eles chegam, a Johanna dá-me as chaves de casa e leva-me ao bloco B, onde encontro o apartamento 012, a minha casa durante os próximos meses.

Jack Johnson – Flake

Entro e conheço o Romain, francês de Grenoble e provavelmente o único rapaz aqui mais baixo que eu (ou até conhecer o Rodrigo, mexicano – mas já lá vamos). Digo o meu nome e imediatamente começa a perguntar se não é Diego. Pronto, já ficou. Entro no meu quarto, aprendo o truque das fechaduras e começo a desfazer as malas. Vou conversando com o Romain e fico a saber que no outro quarto (somos três neste apartamento) está um canadiano, o Guillaume, provavelmente a dormir, apenas e só porque são sete horas de diferença do Quebec para aqui. Hmm, um francês e um canadiano francófono... Aqui começo a pensar que vou ter que estar de 10 em 10 minutos a pedir-lhes para falarem em inglês. Mensagem para a mãe a dizer que já cheguei, chamada da tia a perguntar se tinha tudo preparado. Quando respondo que estou a desfazer a mala, pergunta-me se não tenho avião às seis. Eu digo que sim, mas que tinha sido às seis... da manhã. Risota, diz para eu desligar por causa do roaming, não sem antes serem mandados beijinhos para cá e lá. Sim, o lá agora é Lisboa... Depois de arrumadas as coisas, eu e o Romain vamos ao SMarket em frente a casa comprar qualquer coisa para jantar. Visto que temos esparguete, decidimos comprar a única coisa que sabemos o que é: hambúrgueres, pois tudo o resto está em finlandês e sueco. E nem sequer sabemos de que tipo de carne são os hambúrgueres – foi uma simpática senhora que nos traduziu a descrição; aparentemente, são de mistura de carnes. Ok, vamos a isso, são baratos.

Faço a cama e estendo-me nela... Quando dou por mim são 22h15 – hora de Helsinki. Visto que o Romain não sabe cozinhar (como é que é possível?) e o Guillaume ainda dorme, começo a fazer a carne e a massa. Nisto, o canadiano aparece e começa também a fazer a comida dele. Um sujeito um bocado calado e reservado, mas simpático. Jantamos, frugalmente, mas bem dispostos. Como só temos internet a partir de dia 1 de Setembro, o dia em que começa o contrato, recolho ao quarto e deito-me porque no dia seguinte muita coisa há para fazer.

Moby – Go

Esta é a música que tinha posto no Awaken para acordar às 7h20. Faço os meus 30 abdominais e vou tomar um duche. Como uns Corn Flakes e seguimos os 3 para o Metro. Na estação de Rastila (em finlandês) ou Rastbole (em sueco), compro um bilhete de 2 euros (!) e encontro o Alex e o Chris. Seguimos os 5 (e todos os outros estudantes que viajam em grupos) para Kamppi / Kampen. Entramos na Hanken e temos a sessão de recepção e boas vindas.

Tratamos das burocracias (pagamento da inscrição na SHS, matriculação oficial na Hanken, assinatura do contrato de alojamento, registo no Maistraati - género de Ministério da Administração Interna - de Helsinki ou Helsingfors) com almoço pelo meio. Depois de tudo isto, aproveito para enviar um mail para casa e fazer a inscrição nas cadeiras e exames. Após isto, eu, o Chris e o Alex e mais uns quantos alemães vamos em busca da Estação Central de Comboios para fazer o passe de metro e autocarro mas assim que saímos da Hanken começa a chover. Bonito, Goga, nem sequer trouxeste impermeável para cá – lembrei-me nesse preciso momento, e assim já tenho uma encomenda de Lisboa para pedir. Apanhamos um tram e não pagamos (bandidos!) e lá chegamos a Lasipalatsi ou Glaspalatset (Palácio de Vidro), onde fica a estação. Como a agência da HKL está totalmente cheia, vamos à de Itakeskus ou Ostra Centrum (sim, muito estranho) e em 15 minutos todos os 7 de nós temos um passe que nos dá direito a andar de autocarro, metro, tram e comboio na área urbana de Helsinki. O Chris pergunta, a gozar, se também dá para táxis e é a risada geral na agência. Vamos então para casa.

Bossa n’ Roses – Patience

Começo a escrever os primeiros posts antes que as ideias saiam da cabeça ou a velhinha Moleskine onde estão estes apontamentos dê de si, mas saímos para fazer compras – no Lidl de Itakeskus, a duas estações de casa. Chegados finalmente, sento-me para escrever estas últimas linhas e ficar apreensivo com o tamanho do texto (1627 palavras até aqui). Vou então fazer o jantar e depois vamos seguir para uma festa no bloco E – a primeira “house party”, cuja descrição ficará para um próximo post.

1.9.08

[Ventos de Nordeste] - Prefácio

Desde sempre tive uma paixão por Itália: seja pela comida, seja pela paisagem que a esse pais é associada, pelo futebol, pela família, por tudo e mais alguma coisa. Por isso a escolha de Itália como destino de Erasmus sempre fosse uma escolha óbvia. E foi mesmo isso que fiz.

Quem estiver a ler isto interrogar-se-á porque estou a falar disto. Menciono isto porque sem se perceber o contexto, não se perceberá as razões deste início de “journal”.

Quando finalmente saíram as colocações do primeiro concurso de Erasmus da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, não fui colocado. E para Itália já não restavam vagas para o segundo concurso.  A ver a minha vida a andar para trás, decidi então participar numa reunião promovida pelos alunos que, à minha semelhança, não foram colocados no primeiro concurso. Tendo uma boa pontuação para poder escolher minimamente à vontade a vaga que quisesse, decidi então vir para onde estou.

Resumindo: queria ir para a Bolonha, em Itália e acabei em Helsínquia, na Finlândia.

Escolhido o destino e entregues os papeis, responderam-me da Hanken Swedish School of Business and Administration. Burocracias tratadas a eito e sem jeito (com total paciência por parte da responsável do International Office que me chegava a responder a mails só a dizer que as informações que eu queria estavam no site da Hanken – como é carinhosamente chamada por todos), arranjado alojamento e tratado o bilhete de avião – isto tudo durante a época de exames, stress a dobrar... – só me restava ir de férias e tratar das coisas que fossem necessárias mais tarde.

Depois de umas férias óptimas por esse Portugal fora, só me restavam as aventuras das compras e quejandos. Aqui tenho que fazer um agradecimento à mãe e a sua inesgotável paciência pelas voltas para trás e para a frente que deu comigo e pela ajuda que deu com as malas, ao pai pela ajuda financeira, aos manos pelos conselhos, aos avós pelas ideias de viagens, aos tios pelo encorajamento, aos amigos pelos planos marcados...

E quando dei por mim, dia 26 de Agosto tinha chegado e lá estava eu a ir para o aeroporto de Lisboa, prestes a partir...