13.2.09

[Ventos de Nordeste] MSE

2. Dia e meio em Stockholm

07/10: Stockholm, Sverige

Moby - In My Heart



Acordamos cedo e lá nos coordenamos com os banhos para ver se saímos da cabina a tempo de ainda tomar o pequeno almoço a bordo e ver a navegação à entrada de Stockholm por entre as ilhas amortalhadas por uma neblina matinal, ao que parece muito típica.

Atracamos e desembarcamos. Como de costume, a confusão impera quando todas as pessoas tentam chegar mais rápido que as outras aos autocarros e por isso o nosso grande grupo separa-se e demoramos algum tempo a juntarmo-nos todos. Ao fim de algum tempo, voltamos a pegar nas malas e mochilas e pomo-nos a caminho. Andamos uns 20 minutos até ao hotel, em Södermalm (considerada a zona mais pobre de Stockholm, mas mesmo assim com grande qualidade de vida) onde alguns quartos ainda não estavam prontos - como é óbvio, o meu não estava... Deixámos então as malas na sala de bagagens, pegámos em mapas, pedimos para assinalar o nosso hotel e eu e os que estavam no meu quarto saímos para explorar.

A primeira impressão (daquele dia, se calhar!) é de que Stockholm é uma cidade cheia de luz porque as ruas são largas na parte nova da cidade e os prédios com muitas janelas espelham a luz, dando a impressão de um dia de Verão quando na verdade estavam uns 10 graus. Levantamos também dinheiro, as Coroas Suecas (Kronor), cuja taxa era de 1€ para 9,5 SEK.







As duas últimas fotos são do topo de um miradouro de onde se tinha uma vista panorâmica sobre a cidade, desde a foz do rio Norrström às ilhas dispersas que constituem a própria cidade. Depois de descermos do elevador, aventuramo-nos pela primeira vez pela Gamla Stan, a cidade velha.

A cidade velha está construída numa ilha no meio do rio e nota-se facilmente as influências germânicas na arquitectura e no pavimento: as ruas são calcetadas com pedras negras basálticas, à semelhança de Tallinn. O Palácio de Stockholm, residência oficial do monarca, e outros edifícios como catedrais, a Bolsa de valores que funciona no antigo edifício da Svenska Akademien (Academia Sueca), que atribui os Prémios Nobel.





Depois de passarmos pela Cidade Velha, dirigimo-nos para o ponto de encontro com o resto do grupo. Aproveitamos uns minutos de sol enquanto não chega toda a gente e para perceber o que se vai fazer depois. Almoçamos no McDonald's (sempre presente), onde peço num sueco muito aceitável. Depois de repostas as energias, saímos todos num grande grupo onde uma amiga de uma das tutoras que nos acompanharam nos ia gentilmente dar uma visita guiada pela Gamla Stan.

Toranja - Laços





Passamos então pelo edifício da Academia Sueca, bem no centro da ilha. Entretanto começamos a reparar no denominador comum de todos nós: de vez em quando, as pernas tremiam-nos e abanávamos, o suficiente para parecer que estávamos ainda a navegar; esta ocorrência foi denominada, em jeito de piada, como "the new Stockholm Syndrome".


Após nova passagem pela cidade velha, voltámos ao hotel (a tarde já ia a meio) para deixarmos as mochilas nos quartos e aproveitámos para ir tomar um café antes do jantar, para descansar um bocado. Já todos reunidos, dirigimo-nos então para o restaurante onde tinhamos marcado o jantar para cerca de 35 pessoas. Como não cabíamos todos numa mesa, fomos separados e dispersos pelo restaurante, onde acabámos por ficar em pequenos grupos o que permitiu uma conversa agradável e fluida. Jantei uma posta de salmão tão grande e suculenta que parecia um bife do lombo e bebemos todos uma garrafa de vinho branco, tendo pago cerca de 150 SEK (menos de 15€) por tudo e ainda café.

Daft Punk - High Life

Animados, seguimos então para um bar não muito longe do hotel, o que não difere tanto de uma normal terça feira em Helsinki para nós, estudantes de Erasmus. Mas a verdade é que estamos longe da casa longe de casa, e estamos numa cidade nova e celebramos por isso. E celebramos também, à meia noite, o aniversário da Yvonne, tutora que faz 21 anos. Saímos do bar e seguimos para o hotel, onde a festa prossegue num dos quartos e só acaba quando já não houver forças para mais.

08/10: Stockholm -> Arlanda (comboio: Arlanda Express)

Acordamos e assistimos à derrocada dos mercados financeiros na Ásia. Fazemos turnos para tomar banho e arrumar as coisas, mas sempre de olho na televisão e ligeiramente apreensivos sobre tudo o que poderá isto trazer, não fôssemos nós estudantes de, entre outras coisas, Economia.

Descemos para tomarmos frukost (pequeno almoço em sueco) onde comemos smörgåsar, bebemos mjölk ou applesinsaft e acabamos com uma boa kopp kaffe (ou para os mais relaxados, uma kopp te). Com a barriga satisfeita, subo para buscar a minha mochila e tirar umas últimas fotografias ao quarto e à cama onde até a esse ponto tinha dormido melhor em Erasmus.




Desco e encontro o restante pessoal no lobby do hotel a caminho do pequeno almoço ou já a sair. Conselhos para coisas a fazer e ver em Amsterdam, exigências de promessas que me divirta, abraços para aqui e beijinhos para ali, lá me vou despedindo. Tempo ainda para mandar mails à pressa para família, amigos na Holanda e em Portugal antes de pegar nas coisas e sair.

Kings Of Leon - Day Old Blue

Saio e encontro o Rafa com o Alex e o Simon à porta do hotel, aparentemente à espera de nada. Pergunto para onde vão e descobrimos que vamos todos para o mesmo sítio. Entramos então no metro e dirigimo-nos para o centro da cidade. Eles iam explorar mais um bocado, eu ia para a Central Station, onde ia apanhar o comboio até ao aeroporto.



Separamo-nos à saída do metro e deixo definitivamente Helsinki para trás e deparo-me sozinho, numa cidade a centenas de quilómetros de distância daquilo que conheço e tenho vivido e a milhares daquilo que sempre fui. Os únicos laços que me ligam à terra são os parcos conhecimentos de sueco, a lingua inglesa e uma folha de papel na mochila que me garantia um lugar no voo que me levaria até Schiphol, na Holanda.



Na estação sigo as setas (está mesmo muito bem indicado) até ao Arlanda Express, comboio que segue directo até ao aeroporto que serve Stockholm, percorrendo os cerca de 40km que os separam em 20 minutos.


Chego ao balcão e peço um bilhete, que com desconto de estudante custa 110 SEK (220 SEK custa um bilhete de adulto sem desconto). Aí deparo-me com um problema: é que só tinha 104 kronor e não queria levantar mais dinheiro sueco e os meus cartões não estavam a ter muito sucesso para pagar coisas nas lojas. Expus o meu problema lá ao homem que me atendeu e ele, muito atenciosamente, levantou-se e dirigiu-se a uma pequena caixa de onde tirou umas moedas. Deu-mas, explicando que as pessoas "sometimes forget their change" e assim já pude pagar o bilhete e embarcar num comboio moderníssimo pequeno (tinha umas duas ou três carruagens) e estreitíssimo (no máximo 3m de largura) mas que atingia 200km/h, como se pode ver na fotografia.





Paisagem vista do comboio, sempre muito verde e alegre. Aproveito para ver as notícias transmitidas em inglês nas televisões do comboio. Chegando ao aeroporto, o comboio entra num túnel que corre por baixo dos terminais e cujas duas estações servem os terminais de vôos nacionais e de internacionais. Apeio-me no dos internacionais e subo as escadas para chegar ao meu terminal, numa mescla de excitação, orgulho, apreensão, liberdade. Consulto nos painéis electrónicos o meu vôo: é só daqui a umas horas. Faço o check-in electrónico (com a referência do meu bilhete electrónico e o meu número de passaporte e que até deu para escolher um lugar de janela!) e percorro, hesitante em como matar o tempo, o terminal, vendo para onde vão os aviões que dividem a pista com o que me há de levar para fora da Escandinávia mais uma vez, sem ser da vez em que a deixaria definitivamente.


Fotografias do aeroporto; todo ele feito de vidro e aço, muito simples e elegante. Enquanto escrevo apontamentos na Moleskine para mais tarde os transcrever para aqui, passam por mim 4 jovens em grupo que não teriam mais que a minha idade e que se parecem comigo: cheios de confiança neles próprios, mochilas às costas, sorriso nos lábios. E mais: de cada uma das suas mochilas, via-se o braço da guitarra wireless do Guitar Hero a espreitar para fora. Aí me ocorreu que já não precisamos de ser estrelas de rock ou de futebol para termos esta vida de numa semana visitar 4 cidades em 3 países diferentes, sempre a andar, sempre a viver. Agora já podemos fazê-lo com a mesma liberdade que os nossos pais com a nossa idade tinham para ir, digamos, jantar fora. Ainda a pensar nisto, dou por mim com fome e procuro onde almoçar. Nada me parece mais apropriado que o Sbarro's, restaurante que me fez as delícias quando visitei New York em plena Times Square. Aumenta o meu fascínio por toda esta facilidade de movimentos (restaurantes para aqui e para lá, amigos em toda a Europa, comboios que me levam a 200 km/h para a terra de ninguém - ninguém para me levar ao avião, ninguém para me esperar do lado de lá) e a pizza ainda me sabe melhor. Antes de me dirigir ao portão de embarque, decido passar pela capela para pedir que tudo corresse bem nesta viagem. A capela ecuménica era pequena e silenciosa, com Bíblias, o Corão e a Torah e onde se podiam acender velas por 10SEK. Como já não tinha dinheiro para isso, fico-me pelas intenções. Confiante de que tudo vai correr bem, abandono a capela. E é no fim de tudo isto e por isto mesmo, que de auscultadores nos ouvidos a ouvir Kings of Leon, de blusão e calças de ganga - qual estrela de rock - preparados para 5 dias sem parar e de pensar em tudo o que poderia correr mal e em como tudo iria correr bem, lá vai o Goga para o avião que o irá levar à Holanda.

29.1.09

[Ventos de Nordeste] MSE

1. A partida, ou Os Hankeits fazem-se ao mar


06/10: Helsinki, Suomi -> Stockholm, Sverige (barco: M/S Gabriella)

Ghostland Observatory - Sad Sad City

Quem estivesse na estação de metro de Rastila dia 6 de Outubro toda a manhã veria o curioso espectáculo de uma multidão de jovens, de aspecto obviamente estrangeiro, a levar consigo mochilas e bagagens para o centro de Helsinki. O que os motivaria? Bem, depois de despachadas as aulas, o almoço e os últimos mails enviados para famílias e amigos na Hanken, os Hankeits fizeram-se ao mar.


Pelas 16h45, no porto de Katajanokka, embarcámos no ferry que nos iria levar a Stockholm. A boa disposição imperava no seio deste grupo heterogéneo que incluía nacionalidades tão díspares como alemães e mexicanos, italianos e finlandeses, portugueses e russos, enfim, uma grande salada.


Adeus a Helsinki, cidade triste e pouco mexida para nós no auge da nossa juventude. Adeus a Helsinki e olá a uma viagem de 16 horas pelo Golfo da Bótnia até Stockholm, a capital da Escandinávia.

Embarcámos no M/S Gabriella, navio da Viking Line, que nos seus 12 decks incluí parqueamento de viaturas, cabinas, sauna com jacuzzi, salas de conferências, restaurantes, lojas, um super-mercado e tudo o mais que se possam lembrar que caiba num cruzeiro, estava lá. As nossas cabinas – obviamente as mais baratas – ficavam no último deck, debaixo do estacionamento dos carros e já bem debaixo de água.




Os meus companheiros de cabina e de quarto em Stockholm: o Rodrigo, o Romain e o Josué, também mexicano, com um mapa dos decks na parede. O nosso é o debaixo, o deck 2.

Death Cab For Cutie – A Lack Of Color


As cabinas eram pequenas mas funcionais, com dois beliches cujas camas superiores tinham cintos de segurança para que as pessoas não caíssem com as oscilações e uma pequena casa de banho e uma cortina a dissimular não uma escotilha mas… casco!

Depois de instalados, fomos para os conveses onde se podia sair para o exterior e vimos a saída de Helsinki com a difícil navegação por entre as ilhotas que rodeiam os portos. O vento fortíssimo que soprava na proa do barco empurrava-nos para trás e foi aí que pela primeira vez nesta grande viagem voei: bastava saltar e em plena elevação abrir o casaco que imediatamente éramos puxados para trás. Cheguei a recuar 2 a 3 metros só nesta brincadeira.



À falta de melhor fotografia, como as que um senhor finlandês nos estava a tirar em pleno vôo com uma câmara profissional e que não lhe chegámos a pedir pois desapareceu de vista, fica esta tirada pelo Rodrigo: é evidente o esforço que estou a fazer só para me manter direito!








Imagens do fim de tarde e início de noite que prometia. Depois de se comprarem bebidas e coisas para comer – provisões para o que se seguiria – fomos para a sauna no deck 6 onde pagámos 5 euros para ter direito a sauna, jacuzzi e muita, muita diversão.

Tranquilamente sentados numa sauna pequena num muito peculiar formato triangular, eu e os mexicanos (Rafa, Josué e Rodrigo) mais o Marcus, tutor finlandês, assustámo-nos quando o barco oscilou um bocado mais do que estávamos habituados e um grande barulho ribombou no casco. Perante o nosso sobressalto os dois homens que também estavam lá riram-se e explicaram que o barulho era normal pois estávamos ao nível da água e aquilo era a ondulação normal. Mais nos asseguraram que se o barco metesse água, demoraria dez minutos até chegar àquele deck, portanto podíamos aproveitar a sauna mais um bocado. Rimo-nos e lá nos apresentámos. Ficaram bastante interessados nos mexicanos (“Very far away from home, no?”) mas quando viram o Marcus falar sueco animaram-se:

- But aren’t you Finnish?
- Ja, men jag är en finlandssvenskar. (sueco para “Sim, mas eu sou um Finlandês falante de sueco.”)
- Oh, ok. I guess it’s not that bad! (Primeiro indício da viagem da grande rivalidade entre os dois países)

Lá nos explicaram que sendo um deles sueco e o outro dinamarquês se percebiam nas suas línguas (o sueco, o dinamarquês e o noruguês são mutuamente inteligíveis) e o dinamarquês até gozou o prato a dizer que percebia os outros mas que eles não o percebiam.

Saímos então da sauna e juntámo-nos aos outros que já ocupavam o jacuzzi. Ficámos por lá até sermos expulsos sem mais nem menos, porque já tínhamos excedido para lá do tempo a que tínhamos direito e até porque aquilo tinha que fechar.

Depois disso, fomos todos jantando aqui e ali e acabámos por ir ter ao último deck, onde havia um bar de karaoke e as raparigas já tinham tomado conta daquilo tudo. Sem dar por isso, já estava inscrito, com o Rodrigo e o Josué para cantarmos uma das poucas músicas espanholas que estavam nas listas.

Jarabe de Palo – La Flaca

Com as viagens até às cabinas para ir reabastecer de bebida ou só para trincar mais qualquer coisa, as pessoas foram-se separando em grupos espalhados pelos decks dos bares e bastava procurar num ou outro para descobrir grande animação protagonizada pelos Hankeits. Inconspicuamente eram passadas de mão em mão lata e garrafas de coca-cola e outras bebidas; a razão para isso era a mesma da de Helsinki: era proibido beber bebidas alcoólicas nos bares que não fossem compradas lá, por isso eram disfarçadas de refrescos. Admito que o plano não é muito engenhoso, mas ao fim de algum tempo já ninguém se importava com isso e era ver as pessoas dançar já com as pernas a tremer (“Why are you walking in curves?” – “Well, obviously it’s because I don’t have sea legs!”) mas nem por isso desmoralizadas.

E depois de muitas horas e de um dia longo, as pessoas foram recolhendo às cabinas e demos por nós a ser enxotados da discoteca que fechava. Fomos então para os corredores das cabinas à boa moda do botellón espanhol onde metemos conversa com outro grupo de estudantes. Ao fim de algum tempo e depois de ter encontrado os meus companheiros de cabina, foi a nossa vez de nos rendermos à ondulação e ao sono. Tempo ainda para ninguém conseguir descobrir como se apagava a luz de presença na cabina e de ainda fazer uma playlist no iPod que me iria acompanhar por 4 países antes de toda esta aventura acabar.


15.1.09

[Ventos de Nordeste] Rotinas

The Go! Team - Huddle Formation

Tenho saudades das rotinas. Saudades de acordar ao som do Awaken, de pôr no snooze mais dez minutos, de pôr as havaianas nos pés, dirigir-me à casa de banho e tomar um duche bem quente, da dificuldade que era sair da casa de banho e voltar a calçar as havaianas sem tocar com os pés (lavados) no chão (sujo). De vestir-me e pegar em barras de cereais que serviriam de pequeno almoço no metro (se estivesse a ir cedo para a Hanken) e de encontrar amigos com quem me ria das peripécias das noites anteriores.

Tenho saudades da rotina de almoço na Hanken ou na HSE ou no UniCafé ao pé da casa dos estudantes ou o do Administration Building, em frente ao ginásio, na Fabiankatu. E saudades das aulas em que a maioria dos estudantes éramos nós, de Erasmus, e o ambiente era descontraído e jovial, como se uma continuação da festa anterior ou uma ante-câmara da seguinte...

E das viagens de metro de volta para Harustie de quem não tinha que ficar na biblioteca a estudar ou a trabalhar em que se combinavam as tardes e noites mas uma prática que caiu em desuso perante o improviso a que nos dedicámos posteriormente e à alegria de aparecerem no nosso apartamento para uma cerveja que acabaria por levar sempre a mais outra, que seriam seguidas por alguém puxar de uma inconspícua garrafa de Schweppes.

UEFA Champions League Theme

E das grandes jogatanas que se faziam em Harustie e os tópicos no facebook onde fazíamos a contagem dos jogadores, onde os espanhóis Mendi (com as suas botas brancas) e o Perú (com a sua camisola do... Peru) dominavam a bola com categoria e o Fernando, por contraste, tinha sempre a infelicidade de marcar auto-golos, onde o Maciej (lê-se Machek) destruía tudo e todos com a sua "besteza" polaca e o Wybren dominava o jogo aéreo com os seus 1,95 m, onde o Diogo era a bala vestida de amarelo e que corria mais rápido que os outros com as suas perninhas e onde, se tivéssemos sorte, o Luca aparecia e mostrava porque é que a Itália é campeã mundial de futebol ou daquela vez em que o Ralf (alemão) veio e jogou que se fartou ("Today's MVP is Mr. Kellner!"). E outros, como os austríacos Herman e Stefan (Patakinho, essa promessa do futebol português!) ou o Côme e o Mael (franceses), o Radek (checo) e o Johan (sueco) que faziam número e jogadas impressionantes ou nem por isso, mas que concerteza não destoariam de uma autêntica final da Champions, excepto quando nevava e o campo ficava soterrado por um metro de neve e aí, então, era palco de grandes batalhas de neve.

Volbeat - I'm So Lonesome I Could Cry

A rotina mandava então todos para a sauna, ou no A ou no F building, e lá íamos, descansar, relaxar, beber umas cervejas e falar de tudo: raparigas, festas, viagens e o que quer que nos lembrássemos. E onde o Chris dominava o balde de água e os alemães apareciam vindos de sabe-se lá onde; onde o Alex cortou o pé a correr para a neve e o Eric gostava de se atirar de cabeça para sítios onde caísse ao lado de neve amarela, para que quem o seguisse...

E depois disso, duche rápido e jantar relâmpago com o Romain e por vezes o Rodrigo (se já tivesse voltado do seu trabalho na padaria), regado com uma ou duas cervejas e mais umas latas enfiadas nos bolsos ("These are my party pants and jacket: they can hold up to 6 cans of beer!") para irmos para casa do Rafa (mexicano), do Ralf e do Simon (alemão) jogar mau-mau, em jeito de 'pre-pre-party', onde invariavelmente alguém acabava por perder mais do que uma vez seguida e tinha que aceitar a penalização com um sorriso. A rotina começava a apresentar nuances nas pessoas que vinham jogar mas acabava sempre com alguém que perdia claramente (normalmente quem jogava pela primeira vez) e com o Florian (o barbudo) claramente a ganhar a toda a gente. E o Simon, sem dúvida impelido pelos seus deveres como anfitrião, que distribuía cartas alegremente a quem demorasse a jogar ou estivesse distraído no seu turno, aumentando as probabilidades de essa pessoa perder... e beber.

Guru Josh Project - Infinity (Klaas Vocal Edit)

E depois disso a festa prosseguia para a 'pre-party', quer no E building quer no apartamento das raparigas, um duplex no D building, onde viviam as 3 raparigas (Cynthia, Anabelle e Maria) e o fantasma holandês, de seu nome Séljine. E a rotina começava a desbotar as nacionalidades e os grupos onde quer que a festa fosse. No E building tínhamos sempre o Coco (o Côme já no seu alter-ego 'party mode' e que foi votado "The most crazy Erasmus" no jantar de despedida) a sair da janela da cozinha (um rectângulo que não tinha mais que 20x70 cm) para nos abrir a porta da área comum e a pôr o seu iPod com Daft Punk para o início da festa e Moby para o seu fim ou tantos frigoríficos para guardar bebidas, sendo que a varanda cheia de neve era o preferido. No apartamento das raparigas tínhamos a Cynthia e a sua playlist ("THE playlist!") e dois andares para fazer a festa.

E era nessas festas que por vezes apareciam os tutors (desde o Marcus e o Otto à Jutta e a Johanna) e as pessoas que viviam "at HOAS" - a Stella e a Eva (austríaca), as raparigas mexicanas e o Borja (espanhol de Barcelona mas adepto fervoroso do Real Madrid. Quando lhe perguntei se o Barcelona era o seu grande rival olhou-me perplexo e respondeu-me que obviamente eram os 'índios' - o Atlético) que vivia em Pasila. E nessas festas viam-se ao início as torres gémeas (o Wybren e o Johan) a dominarem a paisagem e grupos de nacionalidades mas lá para o fim o que se via era um grupo gigante que saudava quem entrasse pela porta como se de um irmão há muito não visto se tratasse e de onde saíam as maiores gargalhadas e memórias de Erasmus. E a rotina mandava que se vissem latas de inúmeras marcas diferentes de cerveja, consoante os gostos e as nacionalidades. Era frequente ver o Wybren com as suas Heineken, os alemães variavam entre a Lapin Kulta e a Koff, outros, geralmente os espanhóis, preferiam a Karhu e os que iam regularmente a Tallinn tinham as Saku. Estas latas costumavam ficar pelas casas onde as festas se faziam e cujo retorno dava 15 cêntimos cada aos proprietários das casa - uma espécie de imposto da festa. E as garafas de litro e meio de coca-cola, de plástico duro que davam 40 cêntimos de retorno, que normalmente alojavam mais do que Coca-Cola e as inúmeras garrafas de meio litro de água que tinham "orange juice, I'm telling you!" também faziam a sua presença.

E saudades ainda das corridas para o último metro para Helsinki às 23h12 ou então de apanharmos o autocarro e por vezes encontrarmo-nos com o pessoal da HSE que conhecemos na viagem à Rússia, vindo de Vuosaari, e chegados ao centro decidirmo-nos pelo baarikärpänen, pelo KY ou pelo Onnela se não houvesse festa na Casa.

Rotinas neste bares e discotecas seriam sempre e invariavelmente pagar 2 euros pelo bengaleiro e puxar do Silver Card, cartão que nos permitia ter desconto em cervejas e algumas bebidas. E rirmo-nos e dançarmos e bebermos e divertirmo-nos, tudo isto era rotina. E era aqui, já em Dezembro, que as lágrimas saltavam dos olhos das raparigas e os abraços dos rapazes duravam mais uns segundos e eram mais fortes e "não é adeus, é até à próxima!".

Booka Shade - In White Rooms

E depois era sair das festas e passar pelo McDonald's de Kamppi ou de Rautatientori para comer um duplo cheeseburger ou aguentar pelo autocarro das 4 da manhã (evitávamos o 90N que demorava mais tempo e apanhávamos o 96N que era bem rápido - e onde eu adormeci uma vez e perdi a minha estação) que custava 4 euros e era o último transporte de Helsinki até ao metro abrir às 5h15 aos dias de semana e às 6h30 ao fim de semana. E a rotina, para os que ainda tinham fôlego, era ir para a 'after-party' no E building onde a Olga (espanhola), a Caroline e a Anna (russa) disponibilizavam a sua cozinha e o Luca presenteava-nos com um spaghetti alla bolognese ou no D building, onde as raparigas faziam pão de alho no forno. E era também, para quem ainda não se quisesse render à noite, altura de subir aos telhados (era perfeitamente seguro!) destes prédios - ideia do Coco, claro. E foi numa das últimas noites em que se subiu aos telhados que vimos a cidade ao longe, brilhante e viva na noite escura à esquerda, as árvores gigantes e imponentes que ficavam para lá do campo de futebol atrás de nós, as luzes brilhantes de Vuosaari à direita onde pontificava um prédio que teria os seus 30 andares e à nossa frente a baía gelada.

E aí a rotina acabava com ir para casa e a despedirmo-nos nos carreiros do parque de Harustie 7, com cada um a seguir para o seu prédio e apartamento, para a sua cama e para os seus sonhos e para o dia seguinte. A rotina incluía ainda um relance rápido nas notícias desse dia se para tal ainda houvesse forças e depois deitar-me na cama onde acordaria no dia seguinte, para mais um dia, para mais uma noite.

29.12.08

[Ventos de Nordeste] Entre cá e lá

MGMT - Time To Pretend

Primeira semana em Lisboa, Portugal, primeira semana longe de Helsinki, Finlândia. Custa habituar a estar entre vidas: ainda não vi todos os meus amigos nativos mas pouco ou nenhum contacto tenho mantido com os que por lá ficaram ou já para longe também viajaram.

É tempo de fingir habituações e adaptações rápidas: veio o Natal e com ele trouxe a família e almoçaradas e jantaradas longas e vem agora o Ano Novo que trará mais viagens para fora de Lisboa e amigos e festa e animação.

Mas enquanto não recomeçar a verdadeira rotina, aulas, estudo, algo que estimule toda a vida diária, vivo entre vidas, entre Lisboa e Helsinki, entre a vida antiga e a vida de Erasmus, entre os sentimentos contraditórios de saudades e de alegria.

Vivo em vida emprestada porque ainda não deu para agarrar-me a uma só.

22.12.08

[Ventos de Nordeste] O último voo



Último post, últimas horas em casa, Helsinki, Finlândia, Erasmus, últimas limpezas e arrumações, depois das últimas despedidas, últimos abraços e beijinhos e encontros.

Promessas de viagens, contactos, recordações pairam nas salas, nos quartos, nas ruas e caminhos de Harustie, nas entradas dos prédios, nas cabeças de todos nós.

Fica por aqui concluída a publicação de posts na Finlândia sobre os Ventos de Nordeste aqui no Principado, mas inicia-se um novo ciclo, desta feita em Portugal. Por escrever estão ainda as viagens a Stockholm e Amsterdam e também à Rússia. E um balanço final, sobre tudo aquilo que foi, podia ter sido e ainda será.

Para que não fiquem por dizer mais palavras, deixo-as serem ditas por outros que não eu.



21.12.08

[Ventos de Nordeste] Luz e escuridão



As luzes iluminam, nas janelas, o caminho de volta a casa, a salvo da escuridão da Finlândia. Em tempos de progresso, já fica mais fácil voltar para casa e as velas que ardiam pacientemente durante a noite e que atravessavam a escuridão perdem relevância mas não significado. Substituídas por lâmpadas eléctricas em forma de velas, continuam a marcar presença em quase todas as janelas, de quase todos os prédios.

Para nós, estudantes Erasmus, são as luzes que nos iluminam o caminho de volta para os respectivos ninhos nos respectivos países. Porque chegou a altura de se acabarem os voos, chegou a altura de voar até casa e recolher a cabeça debaixo da asa e dormir num sono prolongado, onde poderemos sonhar e suspirar por outros voos.


19.12.08

[Ventos de Nordeste] Postas de pescada



Porque demoro tanto tempo a escrever um post?

Porque, sendo um dos seres humanos mais curiosos que conheço, sempre que abro a Wikipedia para pesquisar um qualquer artigo, demoro-me horas a abrir artigos paralelos ao necessário para a posta que intendo a publicar.

Porque no YouTube me entretenho a ver vídeos de outros intérpretes e artistas sem ser pragmático o suficiente para escolher o que necessito e ficar-me por esse.

Porque gosto de especular e questionar-me se um post terá a necessária informação de fundo relevante e necessária para que a 4101 km de distância me percebam e entendam.

O facto de estar tão longe e tão perto não invalida o facto de viver uma esperança de um futuro que junte as melhores experiências das duas vivências, mas para isso vou ter que lutar.

Até lá, Natal em família e passagem de ano com amigos portugueses!

Mas a verdade é que os verdadeiros dias de Dezembro são vividos com os amigos criados em pouco mais de meia dúzia de conversas, vivências inesperadas, expectativas de saudades goradas, imaginação solta e recomendável...

Porque depois de voltar será um duro choque de regresso à realidade. Já me imagino a conduzir nas Forças Armadas ou no Eixo Norte-Sul e a desesperar por um lugar na Marquês de Tomar; a embasbacar-me pelos preços ínfimos de uma cerveja no Bairro Alto, comparado com a Finlândia, a perenamente surpreender-me com a disposição de amigos em ir apanhar-me ao aeroporto, mesmo sabendo que pouco ou nada fiz para manter a amizade...

Quero voltar mas ainda assim quero saber se posso voltar...


[Ventos de Nordeste] Horas



A 76 horas de voltar a Portugal, resta-me alegrar pelas lágrimas que causo, pelas memórias que deixo, pelas canções que empreendo.

A tempo suficiente de voltar, a tempo de deixar marcas nesta terra, neste país, nesta vida.

Adeus amigos, adeus que me vou. Adeus Finlândia, adeus Suomi, adeus mas até já nas memórias!

Há ainda tempo para mais, espero. Há, certamente, tempo e espaço para aventuras e desventuras. Porque tudo o que me espera em Portugal se vai orgulhar do que aprendi, vivi, fiz, conheci, experimentei...

Quase, quase a voltar, fica o repto de expectativa de ver quem me espera no burgo...


18.12.08

[Ventos de Nordeste] O fim do Legenda



Ontem, última quarta feira em Helsinki, marcou também a última noite do Legenda, o pub da AE da Hanken. Como tal, quase todos os alunos de Erasmus marcaram presença e uns quantos outros Hankeits também.

Festa tranquila, onde a emoção estava presente em todas as assinaturas de t-shirts, overalls, livros, etc.

Foi o fim do Legenda e que marca também o regresso à inocência: as partidas de amigos já não são feitas a conta-gotas, mas antes a torneira aberta leva-os para longe, para essa Europa fora, se bem que à distância de um computador com internet ou, quem sabe, um bilhete de avião low-cost em Janeiro...


17.12.08

[Ventos de Nordeste] Últimos sopros



Últimos dias, últimos sopros, últimos fôlegos em Helsinki. Entre pensar em fazer as malas e estranhar que há quem já tenha voltado, entre o stress de limpar a casa e de enviar uma encomenda para Portugal com coisas que não vão caber na mala, entre gerir bem o orçamento curto para os curtos dias e pensar no paper que tenho que entregar até 6ª, entre tanta coisa que ainda falta fazer, ver e viver, entre tanta coisa para voltar, perdi-me algures no tempo e no espaço.

I've got soul but I'm not a soldier...

Vivo em luz emprestada, noite contínua e fria, festas de despedida da Finlândia a cada dia que passa e cada vez menos escolha de coisas para fazer, movido pela adrenalina do fim pendente deste Erasmus, mas com a certeza de que ao voltar para Portugal algo de novo e óptimo vai começar. Sei, porque a vida é assim.

12.12.08

[Ventos de Nordeste] Contrastes



"Are you watching closely?" - frase com que começa o filme The Prestige, um dos primeiros filmes que vi cá na Finlândia, quando ainda era um novato nisto de Erasmus. A verdade é que já há muito que se deixou de olhar atentamente a cada pormenor para se olhar para a "big picture". Mas agora que o tempo verdadeiramente escasseia, é tempo de olhar cada vez mais com olhos de ver para tudo.

Depois de mais uma visita (do Tio), do hat-trick de visitas a Tallinn (agora no Inverno, depois do Verão e do Outono), depois do jantar de despedida mas ainda antes do último exame e do último paper e, quem sabe, de uma última viagem a Turku, é tempo de verdadeiramente me perguntar se estou acordado ou a sonhar.

Porque estes 4 meses aproximam-se da sua última semana e do regresso ao Sul, à normalidade, à rotina, onde deixo de ser especial porque estou noutro país, tanto para os que me acompanham cá, como para os que ficaram em Portugal. Porque sei que apesar de matar as saudades dos que ficaram, vou ficar com saudades dos que comigo também partiram.

E, apesar de tudo, não sei ainda quais serão as mais pesadas.


7.12.08

[Ventos de Nordeste] A mochila


A mochila que tenho usado por cá, para as viagens, é do Manel. E ela já o acompanhou por essa Sudamerica fora e a mim pela Europa do Norte fora.

Uma Rip Curl, verde, com capacidade para muitos litros (não sei!), fielmente acompanhou-me por esses lugares tão exóticos como Helsinki, cottage weekend, por toda a MSE (Stockholm, Nijmegen, Amsterdam, Copenhagen, Helsinki), Lapónia (duas vezes), Tallinn, Moscovo, São Petersburgo e o ginásio de Helsinki.

Agora, que ainda está cheia da roupa da Lapónia (tenho estado doente e não tenho tido paciência para desfazê-la), está quieta e encostada à parede, esperando somente a próxima viagem.




6.12.08

[Ventos de Nordeste] A semana do frio


Segunda feira, 1 de Dezembro. Jantar muy temprano, pelas 19h15 - à sueca - , na sequência da feitura da mochila para a Lapónia. Lavo a loiça, despeço-me do Romain e do Côme, outro francês que tinha dado um salto cá a casa, pego na mochila e fico um bocado apreensivo com o peso dela - era menina para pesar aí os seus 12 quilos. Não porque fosse levá-la num avião, mas porque se há coisa que aprendi a gostar e a fazer aqui na Finlândia, é viajar leve.

Encontro-me com o Wybren (holandês) e um dos Florians, o ruivo, na praça e metemo-nos a caminho do metro. Lá encontramos uma catrefada de raparigas que também vêm nesta viagem. Goza-se com o tamanho da mochila da Cynthia, que era quase do tamanho dela, e com a qual às costas ela não consegue levantar-se se estiver sentada. Aqui não se vêem as malas de toda a gente, mas praticamente todos levaram a sua mala grande e todos ficaram espantados como é que eu conseguia levar tudo numa mochila tão pequena.



(da esquerda para a direita: Marie e Jasmin, alemãs, Charlotte, francesa, Majda, marroquina radicada em França, eu, com o meu overall até à cintura, Florian, Wybren, François, francês e no chão a pequena Cynthia)

Pelas 21h encontrámos em Rautatientori (Järnvägstorget, Central Railway Station, Praça dos Caminhos de Ferro) o Walther, austríaco e a Mickaela, eslovaca a viver em Viena, a Stella, italiana, o Maciek, polaco, a Jutta e a Yvonne, as tutoras que vieram connosco. O engraçado é que para além de nós, hankeits, só mais 3 raparigas espanholas vieram nesta viagem de Helsinki. Aparentemente, estavam de férias e a visitar a irmã de uma delas que estuda cá mas como a dita irmã estava em exames, aproveitaram para viajar um bocado. Quantos mais melhor!

Viagem sem história até Tampere, onde apanhámos mais três raparigas que tinham viajado até lá de Turku, duas eslovacas e uma belga, perfazendo um simpático grupo de 25 pessoas, das quais éramos 6 rapazes! Viagem por essa noite fora, muito mal dormida, até chegarmos, pelas 9h a Ranua, onde tomámos o pequeno almoço num hotel e partimos para o Jardim Zoológico de Ranua, o mais setentrional do mundo.

Perante a grande escolha de actividades a fazer (uma visita ao zoo, andar de trenó puxado a huskies ou a renas ou andar de moto de neve), o grupo separou-se e encontrou-se por aí, eu fiz as duas primeiras. A grande atracção do zoo, que tem imensos animais do Árctico, são os ursos polares, os maiores predadores terrestres.


O único macho do zoo a brincar com um pneu, as fêmeas estavam noutro espaço.


Tamanho real! Estava a usar um overall lá do parque que era emprestado a todos os que fizessem os safaries para proteger do frio. Por acaso, estavam uns agradáveis -3º C...

Depois disto tudo, mais uns 90 km até Rovaniemi e eis-me chegado à capital da Lapónia, agora sim coberta de neve! Fizemos compras para o jantar, comemos no McDonald's mais a Norte do mundo e fomos para as nossas cottages.


As nossas cottages faziam parte do um motel à beira da estrada, à americana, e cercado por uma floresta. Os telhados estavam cobertos de neve e os caminhos também. Coelhos saltitavam alegremente por entre as cottages e eram tão dóceis que vinham comer à mão, bastava chamá-los. A minha cottage, a 24, ficou definida como a Party Cottage, ou mais familiarmente, a E Cottage. Cada uma tinha a sua própria sauna, se bem que a nossa sauna era capaz de ser a única que desse para alojar três pessoas ao mesmo tempo...

Para o jantar, nós, rapazes, fizemos um fogo bem agradável, de lenha, num edifício típicamente lapão: uma casinha redonda e baixa, com o telhado em forma de cone, cujo topo abria-se numa chaminé.


Eu, a supervisionar o fogo.

Enquanto fazíamos o fogo, as raparigas foram à sauna comum do motel. Comemos todos juntos, os hankeits, na própria casinha, onde íamos pondo salsichas e outras carnes e batatas no fogo. Depois do jantar, fomos nós à sauna e elas limparam a casinha. A emancipação é uma estrada de dois sentidos... Desta vez, e com a possibilidade de fazer uma sauna à moda da Lapónia, decidimos sair para o meio da rua e rebolar na neve de cada vez que saíamos da sala. Só para homens!

Depois, foi a vez da festa na minha cottage!



No dia seguinte, acordámos pelas 8h30 e o sol ainda não se tinha levantado. Aliás, só se dignou a fazê-lo decentemente pelas 10h mas não deve ter gostado do que viu pois pelas 15h já era noite cerrada. Estivemos duas horas e meia na vila do Pai Natal. Eu, que já lá tinha estado, só lhe achei piada porque agora estava coberta de neve e tinha um pequeno parque de renas. Depois disso, voltámos a Rovaniemi, onde almoçámos no Rosso (lembra-se, mãe?) e depois partimos para a estância de Ounasvaara para quem quisesse fazer ski ou snowboard.

Lá encontrámos outros alunos de Erasmus da Hanken, que tinham ido noutra viagem e cujas cottages ficavam na base das colinas de Ounasvaara. Como era o início da época de neve, só uma pista estava aberta. Assim, fizemos essa pista vezes e vezes sem conta, mas muito animados e felizes; afinal, estávamos a fazer pistas com amigos quase no Círculo Polar Árctico!

Umas horas depois, regressámos a casa e desta vez as raparigas presentearam-nos com um jantarinho bem agradável na minha cottage. Depois, foi uma noite bem tranquila. Os que quiseram fazer uma festa ficaram por lá, os outros recolheram às cottages deles. Como estava todo destruído, fui jogar cartas com os outros. Tempo ainda, antes de me deitar, para fazermos a nossa própria aurora boreal, visto que durante todo o tempo que estivemos na Lapónia o céu esteve coberto.



No dia a seguir, tempo ainda para visitar rapidamente uma quinta de renas e de nos fazermos à estrada. 12 horas sempre a aviar cartucho: uma pessoa só se apercebe que Rovaniemi é assim tão longe quando vai de comboio ou de autocarro, de avião não vale... É que Rovaniemi fica 5 km a Sul do Circulo Polar, o que significa que está mais a Norte que o Alaska, a Islândia e grande parte do Canadá... Estiveste em Ushuaia, a cidade mais a Sul do mundo, Manel? Não faz mal, eu estive a maior latitude!

Chegados a Helsinki, pelas 22h30, foi só tem
po de nos metermos no metro até casa, descarregar as mochilas e cair na cama para só acordar bem tarde no dia seguinte.


Dia preguiçoso: acordei tardíssimo, almocei tardíssimo, comprei uns cartões de Natal para escrever para Portugal, fiz uma composição para Sueco (sobre uma festa típica do nosso país: escrevi sobre os Santos Populares). Quando acabei, ligaram-me para me desafiar a ir patinar no gelo e jogar hóquei no gelo. Como é óbvio, e apesar de nunca ter patinado na vida, aceitei. Fomos então até ao ringue em Kallio, que fica perto da estação de Sornäinen / Sornäs, onde ficámos horas e horas. Saímos de lá quando já estava fechado! Enfim...


A fazermos uns passes antes de jogarmos.



(da esquerda para a direita: Wybren, Johan, sueco, e eu)

Concluiu-se assim a semana do frio, marcada por viagens, frio, neve, gelo, diversão, escuridão... enfim, a Finlândia!


1.12.08

[Ventos de Nordeste] Visitas impromptu e Lapónia outra vez



Sexta feira, durante a tarde:

"Olha, quando é que vais para a Lapónia?"
"Segunda feira, porquê?"
"Ah, é que a Joana vai de Tornio para Helsinki e era para saber se ela e mais dois amigos podem ficar aí em casa..."
"Hmm... se não se importarem de dormir no chão e apertados..."

E foi assim que tive as segundas visitas, impromptu, e que ficaram por cá dois dias e já se foram hoje de manhã para Tallinn prosseguir o seu mini-interrail. Pelo meio, fui presenteado com um bacalhau à Gomes de Sá para aproximar o estômago de Portugal.

Este fim de semana fica também marcado por ter terminado, finalmente, o raio do term paper para EOI. Nem tempo para festejar houve: hoje parto já para a Lapónia, outra vez, onde desta vez espero encontrá-la cheia de neve e talvez, quem sabe, fazer snowboard.

Pois é, sempre a andar, sempre a viajar, sempre a sonhar.

Ah!, e quando voltar prometo que escrevo sobre a MSE e a Rússia. Esses posts serão o novo term paper, pelos vistos...

23.11.08

[Ventos de Nordeste] Neve



De há uns dias para cá, tem vindo a nevar. Primeiro timidamente, ao chegarmos a Harustie depois da festa onde nos finalmente deram os overalls, onde a praça estava coberta por uma fina camada branca que se quebrava alegremente debaixo dos sapatos.

Em Helsinki também já me nevou em cima e ontem, ao irmos de autocarro para Kallio, o Bairro Alto aqui do sítio, as estradas e as árvores cheias de neve alegraram ainda mais o caminho.

Hoje, acordei e saí do meu quarto e, ao olhar pela janela que dá para a praça, um autêntico nevão enche o mundo de branco.

Já começou...

18.11.08

[Ventos de Nordeste] Céu



A leste, o nascer do sol que esborratava a pintura azul celeste em tons laranja vivo, em fogo. A oeste, um arco-íris preenchia a abóbada de nuvens que pontificava sobre a baía que separa Rastila de Puotila. A caminho do metro, hoje de manhã, o céu ofereceu-me dois espectáculos tão diferentes quanto belos.

De manhã aproveitei as quatro horas e meia que tenho entre aulas para visitar as catedrais de Helsinki. Atravesssei a cidade a pé, perante o vento que me empurrava para os lados e puxava para trás, a chuva ligeira que me enchia as pestanas de pequenas gotas e o frio que não venceu, pois hoje levei calças polares por debaixo dos jeans.

Visitei três catedrais afectas ao Cristianismo: a Catedral Branca, pertencente à Igreja Luterana da Finlândia, a Catedral de Uspensky, a maior catedral ortodoxa do Ocidente e que está sob a alçada da Igreja Ortodoxa Oriental, e a de São João, também luterana mas englobada na paróquia de São João do Sul da Suécia. Não passei por nenhuma católica, porque as minhas pernas não me levaram até uma, mas já sei onde posso encontrar uma, e um domingo destes hei-de ir à missa, coisa que, infelizmente, não faço desde antes de vir para cá.

Agora que escrevo estas linhas, o céu decidiu desabar e limpar o dia das suas amarguras e tristezas, purificar as suas alegrias e vitórias e, quem sabe, acabar de maneira perfeita este dia em que senti particularmente Deus comigo.

17.11.08

[Ventos de Nordeste] MSE


Prelúdio

As razões, várias. Porque podia, porque queria, porque devia. Todas as condicionantes conjugaram-se perfeitamente para que pudesse partir à descoberta e conquista da Europa, onde conheceria e reencontraria amigos, onde ri, voei, sonhei, vivi.

Depois de ter trabalhado bem para o group assignment de IB (até aqui, num post mais de um mês depois, sou perseguido por esta cadeira), de ter assegurado financiamento (comer menos, comer menos bem, sair menos, enfim, tudo menos) e autorização materno-paternal e encorajamento dos irmãos e tios e de ter planeado todos os detalhes, desde a partida do centro de Stockholm até ao aeroporto de Arlanda, desde os comboios na Holanda e ao hostel em Amsterdam, só me restava partir.

Mas para tudo isto, teria que haver um motivo. E a força que me impulsionou foi tão somente o desejo de viver a experiência Erasmus ao máximo, seja ao arriscar, ao viajar sem motivo aparente senão o de aproveitar a presença em terras longínquas de casa e conhecer mais umas cidades, mais uns países ou o simples pretexto de visitar amigos.

E a 6 de Outubro de 2008, uma segunda feira, fiz-me à aventura.

16.11.08

[ventos de Nordeste] Escuridão e luz



'Empiezo a estrañar Portugal' - mais do que somente confissão a ouvintes da língua espanhola e a mim mesmo; é também agora, reconheço, a todos quantos me lêem.

Mas o tema musical não é inocente; com mais horas de escuridão que luz por dia aqui por terras finlandesas, o tempo começa a escassear. A ideia geral é de que temos que aproveitar tanto quanto podemos e por isso mesmo as horas de luz e de escuridão confudir-se-ão daqui por diante, na esperança de que tudo seja vivido, experimentado, dito, escutado, visto, sentido, partilhado.

Não que não esteja a gostar, porque estou. Mas há uma dualidade inerente às saudades que nascem; sejam elas por sinceramente querer voltar a tudo quanto vivi durante 20 anos ou por querer permanecer onde vivi e sobrevivi a alguns episódios marcantes e que nunca irei esquecer, por mais que viva.

Só posso desejar que o quer que aconteça, não deixe de me deixar marcas, sejam elas para mais tarde partilhar ou mais tarde recordar.

13.11.08

[Ventos de Nordeste] Um regresso, entre tantos, e a mesma estória

Brandi Carlile - The Story

Mais uma história para contar, mais uma estória de regressos. E a mim, quando regresso, parece que as estórias são sempre mais que muitas, mais que suficientes para não saber por onde começar a contá-las.

Mas há uma sempre presente; uma que se repete sempre. De todas as vezes que regressei, fosse do Cottage Weekend, de Stockholm e Amsterdam, Tallinn, Lapónia, Rússia, há sempre algo que é o denominador comum.

É o quarto que não ficou arrumado, fruto de ter feito a mala à pressa na noite anterior. É a comida que não tenho porque comi-a toda para que não se estragasse. É a quantidade de mails a que tenho que responder e as notícias que ficaram por ler. São os posts que fico a dever e o tempo a escassear por terras finlandesas. São as memórias que perdurarão e os risos solitários no metro ou autocarro a ir e vir da faculdade. São as palavras escrevinhadas furiosamente na moleskine e as saudades da família, das terras lusas, das almoçaradas de fim de semana e a camisa aberta a três botões no Verão que principiam a romper o peito do Príncipe.

É o prazer do regresso, é o prazer de mais histórias e estórias para contar e cativar os pais, os avós, os irmãos, os amigos, os tios, os primos, os sobrinhos, os filhos, os netos, quem quiser ouvir.

É o prazer de saber que por onde quer que vagueie, há sempre um quarto desarrumado à minha espera.

3.11.08

[Ventos de Nordeste] Rússia



Depois de uma viagem ao Norte da Finlândia, aí está a viagem ao maior país do mundo. Parto amanhã para São Petersburgo e Moscovo, onde ficarei até Domingo.

Considerações para posts posteriores, embora saiba que estou em dívida de outras ocasiões. Mas os posts virão, as aventuras serão relatadas e as fotografias reveladas.

Mas por enquanto tenho andado ocupadíssimo a fazer um paper (outro? Ou será ainda o mesmo? Já nem sei...) e com o stress da mochila para esta viagem. E uma enxaqueca no Domingo, a primeira desde que vim para a Finlândia. Bem, um dia haveria de ter uma...

Pelo meio, hoje uma sauna (a primeira em Harustie, o Bronx transformado em Queluz ou Odivelas, vá) para poder encarar a noitada que me espera.

Até ao meu regresso à Finlândia, moi moi ou hej då!